Sobre dizer adeus


Dizer adeus, de súbito, é algo desagradável, traumático, por si só. E, acaso, nos prepararmos para isso, diante de quem amamos, do trabalho que abraçamos, é menos triste?

cansado de tantas brigas”. Quem sabe, “você não tem mais saco pra aquele trabalho monótono e desgastante”. Podemos chutar o pau da barraca, de repente, e sermos levados ao arrependimento, a nos questionarmos se teria sido diferente se tivéssemos resistido mais. No entanto, ao demorarmo-nos a medir os motivos, predizermos o futuro pela situação presente, apenas nos iludimos, pensando que estamos sendo gentis tais quais com um dente mole que, por nós mesmos, não temos coragem de arrancar com os dedos.

Todo sonho, literalmente, ganha vida ao ser alimentado por nossas emoções e pelas imagens de nossos projetores mentais. Todo sonho, por mais errantes que sejam nossas ações, é um ser vivo, em algum lugar além do arco-íris, e merece cuidado, como uma criança gerada por nossos Corações. Se ele adoece, se fica subnutrido, fraco e é deixado aos aparelhos de suporte, de que adianta tentarmos nos convencer de que desligar o respirador do sonho é o melhor a se fazer?

Não! Matar um sonho, por mais motivos que nosso orgulho possa elencar, ao lado da cabeceira do moribundo, jamais será uma atitude genuína de Amor. Todos nós, com a parcela de responsabilidade que nos cabe, ferimos e machucamos, erramos por excesso e por falta. Mas, matar?

Pode soar cínica essa fala, saída dos dedos de quem já errou tanto, e chafurdou tanto na lama do erro. No fundo, ainda assim, sei que dizer adeus é, em última análise, afirmar que nada mais daquilo, ou mesmo o moribundo, nos serve de algo. Cuidamos mal de nosso sonho, exageramos em zelo, ofendemo-nos uns aos outros, brigamos e teimamos. O que era um sonho a dois (ou melhor, um filho de dois) torna-se uma lembrança a ser exorcizada, como uma alma a ser encomendada ao Purgatório, ou ao Limbo do esquecimento.

Para que discutirmos se foi eu que deixei de alimentar nossa cria, ou se você é que era dura demais? No fim, isso equivale a discutirmos se nossa cria descerá a sete ou catorze palmos de barro de encosta abaixo, sob a chuva miúda da madrugada. Oraremos sobre a tumba da cria? Consolaremos um ao outro? De que vale, agora? De que valeu, ontem, dizermos todas aquelas palavras calmas, em tom solene e cordato, um tanto formal?

Chega a ser revoltante o que se diz nessa hora ao morto: “descanse em paz”. São os vivos os que descansam, com seus placares de metas zerados, sem mais vínculos formais e familiares, e o desgaste inconveniente de outrora. O sonho penará só, sem seus progenitores, até que o tempo lhe devore as memórias. Não há perdão, senão uma anistia mal negociada, um acerto a toque de caixa, um requiem à distância.

***

FAREWELL TO MY CHILD

It does not matter
Whether in front of the gates
Of my household or graveyard:
Calm speeches, better,
Tied tears and ripped fates
Emerge suddenly on a post card.

Old wounds ever heal hard.

All that set of dreams
Did appear on your joyful smile,
So strong, breaking me free.
Tonight, a powerful stream
Of words took him out to exile,
“Goodbye, True Life of me!”

An unique Love ever dies harder.

Palhoça, 10 de maio de 2018.

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