Desencanto pelo Mundo e Imaturidade


Num certo vídeo do Luiz Fernando Pondé, um dos pensadores brasileiros dos quais retiro subsídios para reflexões, o mesmo discorre sobre a possibilidade de a inteligência ser causa de depressão em uma parcela das pessoas. Elaborei um comentário acerca deste tema, baseado no vídeo, e de outros pontos relacionados.

Resumo: os traumas do adeus à casa dos pais; da frustração ao ver que relações humanas, no mais das vezes, não passam de encenações, e; de que não há retorno possível ao “Paraíso Perdido” da infância, podem, sim, causar depressão.

Como lidar com esses fatores?

“A tua piscina tá cheia de ratos; / tuas ideias não correspondem aos fatos. / O Tempo não para. / Eu vejo o futuro repetindo o passado, / eu vejo um Museu de grandes novidades.”

(Cazuza)

O encantamento é um sentimento tipicamente infantil. Sim, a maioria ainda não equaliza a “perda da mãe”, ao sair da adolescência; a idade adulta não garante mais a superação da dor de dizer adeus ao “jardim de delícias” da infância, entre as árvores das brincadeiras e sob a égide de deuses-pais onipresentes. Então, o pai diz: “Ganharás teu pão com o suor do teu rosto.” Godfather (Deus-Pai) ficou mais materno e ainda garante uma mesada aos marmanjos de 40 anos de idade, caso eles precisem. Os humanos barganham com seu deus como ainda barganham com seus pais para ficarem de babás dos filhos durante as noitadas de sábado.

Quando a perplexidade toma conta dos seres mais profundos (chamados, aqui, de inteligentes, supostamente), percebendo eles que o encantamento não deveria mais estar ali, e que não está mesmo, eles se veem numa espécie de Limbo psicológico. É como se o padrão do ser humano ainda fosse o de viver num Éden infantil, lúdico. O adolescente luciférico quer se libertar dos “pais”. O adulto arrependido quer voltar ao Paraíso, ainda que tenha que prestar contas à Mãe até do guarda-chuvas que não levou para o dia de chuva.

A depressão vem, basicamente, da incapacidade do diabo infantil de lidar com a dor do outrora anjo proscrito, lançado a um mundo hostil, ilusório, de pesadelos, onde a encenação é onipresente. A evidência da perplexidade e do descrédito exclui tal alma penada do Jardim de Infância improvisado do Mundo. Já não tem ele estômago para a inocência estúpida, nem para jogar essa versão mais idiota de Second Life, todos os dias, em meio a essa sociedade.

Para não sucumbir ao conflito, a saber, de viver isolado com meu dossier do Mundo ou de serpentear entre as colunas falsas deste templo mundano, minha alternativa pessoal foi, simplesmente, fazer o possível com o que acho que sei fazer, falar a verdade sempre que for seguro fazê-lo e, vez por outra, manter contato com os outros ventríloquos humanos (sim, aqueles que “falam pelo ventre”). Para se libertar de Gepeto, Pinóquio não precisa parar de encenar, mas fazê-lo entre os seus. Entre os seus, se é livre para desaparecer.

Pensar saber algo que outros não sabem não me faz superior. Um ser humano, do alto de um trono ou na boca da gamela, é sempre um ser humano. Uma Mente programável movendo uma máquina biológica, com prazo de validade, em constante processo de degradação. E, daí? Relaxe e aproveite o filme!

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