Noctívagas


* Noctívaga: qualidade de coisas, seres ou ideias que “vagam pela Noite”. Título de uma série temática de postagens, a respeito de ideias e sentimentos recorrentes.

Já parou para notar a reação imediata de uma criança cujo castelo de areia, à beira da praia, desaba? Não importa se o mesmo colapsou por um esbarrão, se por alguém ter passado correndo por cima, se pela ação do vento ou das ondas. A reação é a mesma, de decpção. E esta reação pode redundar, entre tantas outras, em uma saudade e/ou em tédio.

A criança, adicionalmente, na suposição citada, pode:

  • chorar um pouco ou compulsivamente;
  • ficar perplexa, em choque;
  • ficar com raiva e chorar;
  • por reação nervosa, vomitar;
  • pedir ou, inclusive, exigir que alguém, adulto ou não, reconstrua, do zero, seu castelo, ou;
  • ela mesma recomeçar a construir o castelo.

O exemplo lúdico, citado acima, ilustra bem o que sinto por esses dias e, por extensão, o que muitos de nós, seres humanos (feitos a partir do pó da terra), sentimos. Como o Mundo ao nosso redor é apenas uma representação do que nossa Mente interpreta daquilo que nos alcança, a rigor, tudo se resume a um conjunto de ilusões sensíveis, de imagens. Pela impermanência das imagens é que sofremos. Quando nos habituamos às tais imagens (ou seja, quando elas se cristalizam em nós), algo externo vem e desarruma aquela imagem, com nossa contribuição ou não.

É o desejo por elas o que nos vincula às imagens. A ânsia, resultado do que chamamos apego, vício, hábito, paixão. Hormônios que alimentem tudo isso, no Cérebro, voltam aos seus níveis normais; a sensação de recompensa por suportarmos suas agruras, e conseguirmos atingir seu deleite, se esvai. 

No entanto, aquele castelo de areia tomou, deliciosamente, toda a nossa tarde sob o Sol indiferente. A realização nos preencheu, pois algo concebido no Coração ganhou vida, ainda que frágil, suscetível ao vento do Sul, ao frio, às invasões de caranguejos e aos nossos próprios pisões. E agora, o que eu vou fazer? Mas, de que eu era, mesmo, feito? Ah, sim, de brincadeiras bobas, de flertes com o nada, de olhar o que os adultos bem sucedidos faziam em sua liberdade absoluta.

A criança volta para a casa com a certeza de que, provavelmente, voltará à praia, quem sabe no próximo Verão. Ninguém cura a saudade, que é a falta do que é irrecuperável, nem engana o tédio, tal é o vazio por aquilo ou por quem não se pode mais alcançar, sentir.

Um beijo no pulso, na laranja. Dormir com a bexiga cheia e acordar com o cheiro de aipim frito. Olhar para todos os girassóis do Mundo e chorar, chorar muito, porque eles voltaram, por si ou por nós, para os jardins dos outros e para os livros de Arte. Estão longe, tão longe de mim.

 

Palhoça, 13 de maio de 2018, às 19h45.

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