Brilho de faca


Poderíamos elencar conceitos, atitudes e sentimentos por aquilo que o senso comum aceita deles como válido e por seu oposto reconhecido. Há, no entanto, aqueles conceitos que tendem a promover sentidos aceitos como padrões aromatizados artificialmente e que apelam ao sentimentalismo típico de mentes alienadas da realidade, com pouca ou nenhuma compreensão do íntimo de si mesmas.

Um desses conceitos superestimados, e que podem camuflar sombras da psiquê humana, é o perdão, que figura, ao meu ver, como uma faca de dois gumes.

Há uma palavra, kitsch, proveniente do idioma alemão, muito usada nas discussões sobre estética cultural, que, entre outros sentidos, denota a tendência contemporânea de utilizar de formas degradadas de Arte erudita para levar cultura às massas sem acesso à cultura clássica, num ambiente de pulverização e consumismo industrial.

E é nesse contexto de valores, que parecem doces de festa de aniversário, que o perdão foi empurrado e reciclado goela abaixo da sociedade enfraquecida moralmente. Esse processo vem minando a capacidade racional do ser humano há séculos, mas nos aproximamos da estupidez completa das massas, nos últimos tempos.

kitsch do perdão

Voltemos ao tema desta postagem, o perdão!

Quando digo que o exercício ativo do perdão, em relações interpessoais, é algo que camufla sombras humanas, é porque não leva mesmo em consideração as verdadeiras motivações para a leniência que, para mim, e na maioria das vezes, é o que há no perdão, tal como é pregado hoje em dia, não passando ele de uma forma adocicada de auto-engano e de diplomacia conveniente, com fins a nos desvencilharmos do que não nos interessa mais reter.

Considero, sim, o perdão como uma tomada de posição bastante radical e que põe fim a situações bastante complicadas, de forma prática e rápida. É preciso querer sair daquele clima de rancor, de ódio ou de tensão quase onipresente. E, aí é que pecamos, muitas vezes. A pressa, das partes em conflito, por soluções rápidas, e a intolerância moderna ao processo de catarse (ao qual muitos chamam de sofrimento e trauma), nos fazem deixar passar as melhores oportunidades de trazermos à tona as lições da Vida e seus conteúdos até então não apreendidos.

“Doa a quem doer”

Não há como perdoarmos alguém, conhecendo suas verdadeiras motivações e sentimentos (na raiz de suas agressões), sem que investiguemos a fundo nossa personalidade e tragamos à baila todos os impulsos em nós esperando para serem revelados. Não precisamos matar alguém para termos ciência de um impulso para tal, nem espancar a cara de quem nos traiu por sabermos que estávamos a ponto de chegar a esse extremo. Mas, precisamos saber o que somos, sentimos e, se possível, expressarmos isso tudo a nós mesmos e ao outro, duela a quién duela. Senão, continuaremos a ser personagens obsoletos neste baile de máscaras que é nossa Vida, neste buffet de sorvetes com balas coloridas de todos os tipos.

Precisamos encarar a Besta interna (à qual Jung chamava de Sombra, nosso estrato subconsciente) e mostrarmos a ela que dela não temos medo. Perdoar é “doar totalmente”, é devolver ao outro o que dele retemos, uma dívida, um nó, um desejo abortado, um tumor purulento, covardemente escondido sob nossos panos coloridos de festa, sob véus de oração, brancos e castos.

Isso só é possível quando conhecemos o que nos une ao outro, o que nos vincula à estrada do outro. É difícil perdoarmos, pois não queremos deixar ir e porque a correção daquilo que carregamos se tornou, mais do que nossa própria Essência, o motivo mesmo de acordarmos todas as manhãs. Nisso, o perdão será, sem dúvidas, o último adeus.

Sobre o brilho de faca

Errado é dar a outra face ao tapa alheio? Não é esse o problema. O problema é que muitos o fazem sem saber se o querem, mesmo, fazer. Se sujeitam sem terem ciência que permitir ao outro a chance de agredir-lhe não é melhor e mais honesto que defender-se, legitimamente. Não veem que negar-se a própria vontade implica em indiferença ao desejo mesmo do outro, numa atitude de vaidade ou desdém camuflado de atitude superior. O perdão só é possível quando houve o justo julgamento, dentro de nós e do outro. Aí, sim, do chão é possível aferir o brilho das estrelas e a umidade do lodo que tinge nossos mulambos humanos.

A tragédia incutida em um trauma, em uma decisão difícil, em uma escolha radical, pode nos levar para o colo dos diabos, que imperam sobre a inversão subterrânea de valores, ou para a contemplação da verdadeira Gnose do que somos, sem remorsos inúteis e sem desculpas a toque de caixa.

Há Amor, até mesmo, no revide, desde que honesto, consigo e com o o outro. Senão, o futuro nos traz o passado de volta, seja no semblante de um Amor visceral, que nos arde no Coração, seja no brilho da faca do Destino, que reluz em seus dois gumes.

path3777

***

  • Créditos da Imagem de Capa: “Último Adeus” | Arte tumular no Cemitério da Rua Cardeal Arcoverde, em São Paulo, SP. Constante dos túmulos do casal Antonino Cantarella e Maria Cantarella. Mais informações: Arte Tumular – Memórias e Histórias < https://wp.me/p4nSYH-2f >.

Um comentário em “Brilho de faca

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