Meditações ambíguas


A Deus, agradeço pela tentação do Diabo. Ao Diabo, agradeço por não estar nem aí pra mim. Ao primeiro, a faculdade de ler mãos, e de as segurar, enquanto as leio. Ao segundo, o conhecimento de como segurar dinheiro como cigarro de palha.

Ao Zodíaco, o conhecimento dos primeiros desenhos de animais.

Jamais me interessaria por Balança sem o conceito de Justiça. Impensável que Aquário fosse o homem que carregasse o Jarro de água, mais do que prisão de vidro para peixes em exposição. Gêmeos, não mais dois irmãos, mas Alma e Corpo, Razão e Coração encontrando-se no manicômio craniano de uma mulher descabelada.

A ti, Carneiro, sou grato pela valentia de quem berra por um segundo e chora por três anos, cujos chifres enrolam-se como rabo de porco para não lhe machucarem. Ao Leão, pelo reinado animal de um cabeludo sem coroa, a genialidade de quem carrega no Coração um drama e um conjunto de holofotes. Ao Sagitário, pela mente cuja seta acerta o alvo sem que este tenha surgido, que enxerga na frente o que ainda não foi concebido, que viaja na maionese sem precisar de colher.

Ao Touro, pela força para erguer a pança da mesa e o sorriso envergonhado do Amor que se foi. Ao Bode Capricorno, pela capacidade de guardar e esquecer onde enfiou o dinheiro, a resistência que torna o couro do jacará mais duro tanto quanto mais é surrado. À Virgem, pelo pão da Vida e pela Vida que duvida, pelo dom do método e pela sabedoria de se furtar ao fruto sem espantar as abelhas.

Aos Peixes, devemos o Cristo que veio e que virá, quem sabe, com a vaca que tosse enquanto prevê os números do jogo do bicho. Ao Caranguejo, é devida a intuição irritante para descobrir pena de ganso em feto de mamute, para reclamar do que não recebeu e disfarçar a eterna preguiça da segunda-feira. Ao Escorpião, lembro o bisturi da cirurgia interna, a resistência ao naufrágio, o dom de causar traumas incuráveis e a coragem de fazer o trabalho sujo de todos.

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Seja grato! 🙂

À minha Mãe, por ter-me permitido nascer, nutrido e ensinado a deixar trabalhos escolares prontos com uma semana de antecedência. Ao meu Pai, por não ter atrapalhado demais a educação dada por minha mãe e ter-me deixado o gosto pelos estudos, entre outras coisas. Ao meu último gato siamês, devo a ânsia de rever os que amo antes que morram. À minha avó, Dona Lina, remeto a certeza de que isso, só, não basta para que não morram. Ao meu tio-avô, João Bernardino, a utopia de ser quase imortal e chegar aos noventa anos de idade com um palheiro na boca.

Ao Bem, não ser mal. Ao Mal, não ser chato. À chatice, não ser eterna. Ao Amor, não ser bom, mal ou chato. Bem e Mal caem diante do Amor, e o Amor cai diante do último adeus, da corda cortada no cais do Porto e do barco que segue, à deriva, sob o choro de sereias imaginárias, rumo à ilha deserta de meu olho marejado.

Palhoça, 10 de julho de 2018.

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