De Beatitudine


— Sobre a Felicidade.

À pergunta sobre como ser feliz, todo mundo tem sua receita a apresentar. Quando são bem-sucedidas em seus projetos, pessoas ufanam-se por terem, supostamente, encontrado seu elixir mágico, seu pó milagroso ou seu estilo de vida perfeito.

Será, mesmo, que tais pessoas são felizes? Abaixo, exponho minha visão sobre o que é a tal felicidade.

Os seres humanos, como eu já referi em postagem anterior, são seres sublunares, sujeitos às vagas revoltas das emoções. Desejos são ventos ardentes que movimentam as águas profundas do Subconsciente. Têm-se que a Vida deve progredir. Mas, progredir, em qual direção, e para quê?

Os dias e noites se sucedem. Viver torna-se hábito. A sucessão de hábitos automatiza a Vida em um ritmo hipnótico. Viver é bom (ou deveria ser); é agradável (ou deveria ser). Fugimos da dor e perseguimos o gozo. Assim, sendo sublunares, somos reativos e medrosos, iludidos e sombrios. Inventamos prazeres sensoriais e espirituais para fugirmos, por nossa conta e gosto, do dever de encarar a Luz (que revela, implacavelmente, nossas sombras).

A Vida, tão insegura; a carne, frágil. Crenças trazem certa ordem à ansiedade que nos assalta. A desordem moderna nos leva, pela lei do pêndulo, a buscar controlar tudo à nossa volta. Coagulamos e diluímos o caldo. Retemos e soltamos a corda. Cansamos e descansamos. Trabalhamos e nos demitimos do emprego, do casamento, da Vida.

Afinal, a felicidade é isso que mostram? Acumular riquezas e conhecimentos, gozar, consumir, reter; ver crescer, ostentar, testar limites; experimentar bebidas, drogas e crenças?

Se a Felicidade residir no conhecimento e aquisição de sabedoria, como numa pirâmide de Maslow, jamais nos saciaremos. Uma pergunta nos perturbará, entre outras: “Para quê isso tudo?”. Duas atitudes advirão: ou nos calaremos e agiremos anonimamente (como fazem os martinistas), ou nos ufanaremos em praça pública, para disfarçarmos (e disfarçarmos mal) nosso delírio e nossa frustração.

Se chamarmos Felicidade à aquisição de bens, nos desesperaremos por vermos que não levaremos sequer um botão de camisa deste Mundo. Ou desanimaremos do que fazemos, numa espiral de apatia, ou nos consumiremos em vícios de toda sorte.

Se chamarmos Felicidade ao Trabalho, e gostarmos do que fazemos, a frustração será aliviada pela rotina e pelo senso próprio de utilidade. No final, entretanto, saberemos que aquele é o preço que pagamos por estarmos vivos, um tributo ao deus deste Mundo. Porém, se detestarmos nossa função e pelo quê trabalhamos, carregaremos, até para o leito, o estigma de escravos.

Se chamarmos Felicidade ao gozo sensorial (sexual, visual, ócio, etc.), pressentiremos que ele acabará tão logo nosso corpo físico e mente se desagreguem. Sendo assim, a Vida se resumirá numa corrida ingrata por prolongar o que, certamente, cessará um dia (a qualquer momento).

detstfdwkaagwu5

Tudo o que chamamos, comumente, de Felicidade, traz em si as sementes do próprio sofrimento, a saber, o desejo estéril e a ânsia. Ambos fazem sucumbir os dois agentes mais nobres que portamos, a Mente e o Coração, na lama movediça das causas e efeitos (karma).

Se a Felicidade, no entanto, passar pela superação do sofrimento, ela deve implicar no fim da ansiedade e na suavização dos desejos. Se você aquieta o desejo e educa seu pensamento (onde o desejo ganha força), atrairá menos dissabores e se verá menos obrigado a optar (que é o que retroalimenta o karma e as reencarnações). 

O que eu apontei acima, invariavelmente, nos traz algo indispensável ao ser feliz: a Paz. Se você evita abrir demandas; não bate de frente com quem lhe atravessa o caminho; não reivindica o que é passageiro e materialmente supérfluo; não se rende ao ciúme e à inveja, entre outras coisas, você aprende a se desapegar da maior parte das fontes de sofrimento e alcança estágios de maior quietude interior.

Portanto, a Felicidade perene, para mim, equivale à Paz. Implica em não se deixar abalar por desejos, ânsias, rancores, paixões, ódios ou amores, por mais justificáveis e sublimes que possam parecer.

Quando nada conseguir, dentro de você, fazer mais barulho que o Silêncio, a Felicidade significará, verdadeiramente, um estado de Liberdade.

2 respostas para “De Beatitudine”

Escreva abaixo seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.