Iludimo-nos com tão vãs filosofias e com baixos conceitos acerca do Universo, tão medíocres quanto infantis. Procuramos as causas de nossa existência não pelos efeitos físicos que personificamos em nossos corpos de carne, mas fustigados pelo destino dos mesmos, confundindo-nos com o limo de Adão, com a areia dos cemitérios e com o pó das ossadas. Mas, acaso, será mesmo que não somos mais do que pó?

Imagino como seria o diálogo da Alma com seu filho, o Pensamento. Em certa altura, o Pensamento enquadra sua Mãe com a pergunta preferida das impacientes crianças: Por quê?

Sem perder tempo e sem perguntar acerca do quê o Pensamento inquiria-lhe, a Alma começou a diletar e o menino calou-se. Nestes termos:

Não sabes o porquê por faltar-lhe a memória do que veio antes de ti. Também pudera, mudas a cada instante. Vives de ligar imagens e sensações, umas às outras. Dessas coisas, crias conceitos. Nisso, és é uma fumacinha da queima de tudo o que me rodeia. És filho de minhas sensações e dos meus desejos. Embora cresças, permaneces inquieto enquanto questionas. Quanto mais questionas, mais perguntas nascem sobre tua pele.

A Sabedoria nunca lhe chegará, nem jamais alcançarás respostas, enquanto encontrares teu irmão, o Tesouro. Sim, o Tesouro, aquele que mora no Coração. Dele, sim, nasce a Luz do Sol eterno. É ela que liga todo o Ser que você guiará ao que veio antes e que está acima dele, ao Universo que é análogo em todas as suas partes, do átomo ao núcleo mesmo das galáxias.

As pessoas se perguntam, quando em desespero, por que nasceram. Não querem mais viver. Dez minutos depois, resmungam pelo fato de os seres vivos morrerem, não raro em meio a dores. E o que é a dor, senão a sensação que as pedras não podem expressar? A pobreza e a miséria são transitórias, sentidas por corpos transitórios, biodegradáveis, não importando se sutis ou densos.

Se não conheces a história inteira, e queres conhecê-la a partir do cérebro que operas, viverás em perene ânsia, com medo. E quem vive com medo, atormentado pelo que não pode evitar, jamais terá tempo para amar. Com a Mente, pode-se decidir algo dali para a frente, mas não conhecer o que foi no Passado. Apenas através o Coração é que o medo será extinto e que terás, enquanto meu Filho dileto, um destino útil para a humanidade.

Finalmente: não conheces o Amor. Só o Coração o apreende e alimenta seu fogo. Se conhecesses o Amor, não perguntarias por quê, mas quando. O Amor não é um acidente, é a causa suprema de todas as coisas.

O Amor é que te permitiu perguntares, inutilmente, o motivo de tudo. É por não o achares em lugar algum, nem entenderes suas ações no Tempo, que Ele te permitiu a ignorância. Não obstante chacoalhares dentro de um corpo de pó, és mais do que pó, muito mais do que pó.

Se vieres às quatro horas, serei feliz desde as três.

(Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”)††


Um comentário em “Muito mais do que pó

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