A ingratidão e a ira ainda imperam


Muitas religiões, ao longo dos últimos séculos, foram úteis no processo de refinamento moral (apesar de lento) da espécie humana. No entanto, no Ocidente, embora deficiente em muitos aspectos e auxiliada por conceitos do Oriente, a ritualística católica conseguiu imprimir no vulgo o imperativo hermético do equilíbrio entre as necessidades físicas e espirituais. Mais: eu não temo ser rotulado como coroinha por anticatólicos, nem como herege pelos católicos.

Muitos grupos modernos, alegadamente ocultistas e emancipados da prisão católica, costumam cuspir no prato da Igreja, da qual ainda comem os fartos miolos do legado cultural que ela lhes deixou. Medem os graves erros da Inquisição sem usar o mínimo de critério, com os olhos sentimentaloides (da Geração Mimimi) e rebeldes (dos herdeiros de Woodstock). Apontam, apenas, os erros alheios, sem perceberem que suas ânsias, não satisfeitas diante do sacrifício do Altar, ainda rugem, ferozes, dentro de seus peitos supostamente insuflados pelo conhecimento “superior”.

Quando Sócrates dizia que sabia, apenas, que nada sabia, estava ele consciente do que eram os tais deuses, lhes conferindo os significados corretos (como vetores de forças inconscientes do Universo), sem arrotar onisciência e sem cuspir novos dogmas para anatematizar os antigos. Todo dogma tem seu uso exotérico (com fins a nivelar a conduta moral e social) e esotérico (conhecido através das práticas místicas). Os moderninhos não buscam ir, sinceramente, às raízes do conhecimento; apenas querem “sair da Casa do Pai” como meros adolescentes tardios.

Os new-agers zombam da ladainha e do Rosário, mas são pródigos na vocalização, por horas, de mantras hindus e budistas ainda mais repetitivos; criticam a vocação contemplativa dos mosteiros, dedicada ao silêncio e à meditação da herança cristã, sem lembrarem de como babam ovos de iogues que passam meses, até anos, sem tomar banho, comer, beber e fazer sexo.

Obviamente, a hierarquia da Igreja, composta por seres humanos (alguns deles, infiltrados nela para a destruírem), é cumulada de erros e, sim, tem sua história manchada por barbáries das mais diversas, numa sanha paranoica contra pessoas e contra a Sabedoria. Movida por desejos cegos de poder, toda uma cadeia de homens iníquos e mundanos, que se diziam católicos, profanou a Sabedoria eterna, perseguiu adversários, torturou inocentes. Mas, essa Igreja não era, e não é, onipotente. Por isso é que seu misterioso Hierofante e fundador, juntamente com sua egrégora (o que chamamos de Corpus Mysticum), enviou-lhe seus discípulos, suas luzes, seu Paráclito, ao lamaçal terrestre, ao longo destes últimos dois mil anos, para trazer-nos esperança e correção.

A Igreja tem, em si, a Alma do Ocidente. Em seu Altar, a Eucaristia é celebrada, há mais de dezenove séculos, como o maior e primeiro rito de Magia Branca por estas bandas. A Gnose foi absorvida por ela, escondida, mas não eliminada. Seus padres e místicos continuaram, por outros termos, a Guarda da Tradição. Alguns deploram seu sincretismo teológico e litúrgico. No entanto, foi tal sincretismo que a manteve viva e garantiu a sobrevivência da Tradição após a decadência e morte irremediável do Paganismo antigo, nos séculos finais do Império Romano, provocada pela metástase moral daqueles tempos.

O Cristianismo não sobreviveria ao Islã monolítico, que viria pouco tempo depois, se as dezenas de vertentes gnósticas, beligerantes entre si, continuassem a divulgar os arcanos sagrados e “jogar as pérolas aos porcos”. Sim, foi necessário que a Gnose fosse levada ao subsolo, novamente. De lá, sem ser profanada, a Tradição poderia continuar a correr, homeopaticamente, para a superfície das mentes humanas, iluminando-lhes, pouco a pouco, as existências.

Nestes tempos, em que esperamos que os povos tenham melhorado, a revolta do Filho Pródigo ainda é o padrão de conduta reinante. A Serpente-Leão, deus cego saturnino, regente da matéria e do Astral inferior, ainda predomina pelo impulso altivo manifestado nos seres humanos, que atiram tudo ao fogo; que não conservam e não amam, e que medem tudo a partir do prisma de sua própria ignorância, traduzida em apego, ira e ingratidão para com o Passado.

3 comentários em “A ingratidão e a ira ainda imperam

Deixe uma resposta para Júlio [Ebrael] Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.