Das colmeias de abelhas aos impérios; das colônias de formigas aos rebanhos religiosos, a lei do Equilíbrio cobra seu tributo ao limitar a autonomia do indivíduo face às necessidades coletivas.

Entre tantas ovelhas que se desgarram e formigas que criam asas, Bento foi um rapaz que, fugindo do torpor das cidades, encontrou, no trabalho e na contemplação, os meios essenciais para compreender os segredos da Vida. Eis que ele viria a tornar-se inspiração para os buscadores da Verdade que vieram ao longo dos séculos após sua aparição. Eis, também, que me incluo entre os últimos de seus admiradores!

Vivemos num brejo

Este planeta é um brejo escuro rodopiando em torno de uma fornalha nuclear, chamada Sol. Neste nosso mundo, tal qual casa, a Vida pulula ainda sob o peso de necessidades e da competição selvagem. Enquanto a maioria das espécies está adormecida e inconsciente destas trevas, a espécie dita dominante (a humana) deveria já ter despertado para a necessidade de transformar seu meio ambiente, regido pela sede de sangue e poder, em algo mais refinado.

Ao contrário, em passos de formiga (como diria Lulu Santos), a humanidade segue sua trajetória exatamente como as outras espécies, com pouca, quase nenhuma, vontade consciente. A tecnologia não conseguiu mais do que mudar as percepções das pessoas que, no entanto, continuam adormecidas para o Ideal da evolução, do voo por sobre o pântano das necessidades e ânsias. O desespero e os medos ainda motivam as ações e reações mais apaixonadas.

Bento, o iluminado

Bento foi uma dessas formigas humanas que, tendo parado em um determinado ponto de seu caminho, destoou de sua gente e reparou na beleza da Criação de uma forma diferente, não mais anestesiado pelo burburinho de Roma do séc. V. A futilidade e o vazio por trás das máscaras das pessoas inquietavam-no, apesar da novitas cristã da sociedade. Tudo que é puro e imaculado acaba afundando na lama para, ali, ser guardada por tempo necessário.

É por isso que os profanos não suportam o silêncio, a contemplação, a continência dos sentidos e o olhar para o Alto. Não entendem por que os genuínos místicos não confundem obediência e humildade com ignorância e cinismo.

Bento nasceu em Núrsia, Itália. Místico, foi iluminado durante um período de três anos como ermitão, de vida em companhia de Deus e da natureza. Junto de outros jovens, que nutriam o desejo por uma vida em santidade, tal como ele, Bento funda uma Ordem de monges, sob a divisa Ora et Labora (em latim, Ore e trabalhe). Sem dúvida, a oração, o trabalho, o estudo e a meditação são os carismas dos beneditinos como os conhecemos, que garantiram a preservação dos tesouros da Ciência, Arte e Filosofia antigas em seus mais de 1.200 mosteiros espalhados pelo mundo.

Vade retro, Satana!

Além do ardor pelo saber, Bento ainda nos deixou uma fórmula de proteção contra as hostes malignas, contidas na célebre Medalha de São Bento, gravada numa de suas faces. Ali, vemos as iniciais das palavras que compõem a oração (em latim), como abaixo:

Figura 1: imagem de São Bento, com uma cruz, à sua direita, e um livro à sua esquerda. Ainda na figura 1, em latim, “Cruz de nosso pai Bento” (“pai” na Fé). Em circular, a frase “Contemos com sua presença na hora de nossa morte” (coloca-se, em união com a egrégora da Ordem que ele preside espiritualmete).

Figura 2: Palavra “Paz” (em latim), acima. Em torno, as iniciais das palavras da poderosa Oração de São Bento: ” “Crux sacra sit mihi lux / Non draco sit mihi dux / Vade retro satana / Numquam suade mihi vana / Sunt mala quae libas / Ipse venena bibas.” (Que a Cruz Sagrada seja minha Luz / Que o Dragão não seja meu guia. / Retira-te, Satanás! / Nunca me incites a coisas vãs. / São más as coisas que me ofereces. / Bebas tu mesmo do teu veneno.)

A pequena grande formiga

Bastou que uma formiga, uma pequena formiga chamada Bento (o Abençoado) se deixasse absorver pelas pedrinhas do Caminho para que todas as gerações após sua aparição tivessem um upgrade e recebessem as luzes do Alto. De sua Obra, Universidades e escolas, hospitais e bibliotecas, foram fundadas.

Mesmo sabendo que a maioria de seus seguidores não fez jus do hábito beneditino, não podemos nos esquecer que estamos todos no mesmo brejo. Se somos chamados à santidade, é por que não somos capazes disso, se ela não vier do Alto.

Ora pro nobis, Sancte Benedicte, ut digni efficiamur promissionibus Christi. Amen.

(Orai por nós, São Bento, para que sejamos dignos das promessas de Cristo! Amém!)

Um comentário em “Bento e as formigas aladas

  1. Muito obrigado pela sua meditação sobre São Bento e sua contribuição pra todo o cristianismo. Sou anglicano e a Igreja Anglicana também foi muito influenciada pela escola beneditina, principalmente no período que a fé anglicana se expressava como cristianismo celta. Deus te abençoe!

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