O Grande Arcano e a Onisciência


Na literatura ocultista, principalmente da Tradição Ocidental, muito se lê a respeito do chamado Grande Arcano da Magia, ou Grande Segredo. A seguir, com certo tremor nos dedos, tento explicar como, talvez, eu tenha esbarrado com o conteúdo de tal segredo. Ou, ao menos, exponho como eu posso tê-lo intuído.

Dirão os iluminados contemporâneos que o preâmbulo acima deixa transparecer certa ausência de modéstia, tendo em vista a minha quase completa falta de experiência nos domínios do Ocultismo. Tal crítica é absolutamente válida. O próprio Eliphas Levi alertava que a temeridade na interpretação dos princípios herméticos poderia extremamente perigosa para os que se lançassem a tais aventuras. Não raro, a loucura era o salário dos profanadores.

Ainda assim, a especulação é livre e o Tempo, senhor ao qual submeto, livremente, o arbítrio sobre minhas palavras, me julgará de forma justa. E isso me conforta, ainda que me faça temer pelos que acompanham aqui. Sem medo de ser (in)feliz, coloco a minha afiada Lua em Gêmeos a serviço das possibilidades de interpretação de um dos mistérios expostos pelo próprio autor de Dogma e Ritual de Alta Magia, célebre obra esta da qual retirarei o material para esta postagem.

Dúvidas

Nas palavras de Eliphas Levi, o mais célebre ocultista do séc. XIX, a metáfora da Árvore da Ciência do Bem e do Mal encerra um segredo que traz, certamente, a morte a quem o divulgue. Ou seja, A vida dos seres humanos, como tais, depende de ignorarem tal segredo.

A tal metáfora simbólica encontra-se no livro bíblico do Gênesis (cap. 3). Segundo o texto, ao comerem do “fruto” da tal árvore (ou seja, conhecendo o segredo daquela ciência), os seres humanos tornariam-se como os deuses. Talvez, o segredo referisse à possível imortalidade ou à própria Criação?

Não vou me demorar em demasiadas descrições acerca do Grande Arcano da Magia. Àqueles que desejarem se informar mais completamente sobre as origens desta expressão, recomendo a bela matéria consultada por mim no site português Lusophia (clique aqui). O tal Grande Arcano (ou Segredo) seria, para uns, uma “receita” de um elixir destinado a prover a imortalidade; para outros, o caminho reservado a poucos “eleitos” pelo qual se poderia, através de operações alquímicas e de práticas tântricas, ou por uma certa Gnose, alcançar a união mística com Deus.

Mas, a pergunta que não quer calar é: qual a consequência prática, clara, em termos bem honestos, dessa tal união? Por que a revelação deste segredo causaria a morte aos seus incautos profanadores?

Ora, não é difícil prever que a imortalidade ou a união mística, se reveladas a seres ignorantes e preguiçosos (a maioria esmagadora da Humanidade), acarretaria imputação de crime de responsabilidade aos atrevidos alcaguetas. Ora, não teria sido já bem pesada a punição ao mítico Prometeu dos gregos? A lendária caixa de Pandora nos fora legada, como pacote de desgraças bem volumoso, por punição pela ousadia do Titã. Prometeu bem poderia ser equiparado à Serpente rebelde que ousa escalar a Etz Chayim para conquistar o Trono do Altíssimo.

Está certo. Não vale a pena revelar o “segredo”. Mas, será que, a exemplo do que diz a Tradição Ocidental, o Arcano seja mesmo aquilo que nos é transmitido? E, se for, terão contado a Verdade inteira (ou melhor, toda a parábola)?

O que nos deixou dito eliphas levi?

Antes de ir ao parágrafo que me tira o sono há dias, gostaria de deixar claro que há uma publicação de Eliphas Levi em que este trata, de forma dedicada, deste tema. A obra é intitulada O Grande Arcano do Ocultismo Revelado. Como dizem os autores do prefácio da edição gratuita em PDF (membros da SCA, Sociedade de Ciências Antigas), Eliphas Levi, ali, deixa escrito como quem seu “testamento”. Na minha humilde opinião, são valiosos os ensinamentos contidos naquelas poucas linhas, porém mais me parece água-com-açúcar, tendo em vista o que evoca o título. Coerentes, sim, mas evasivos se nos ativermos ao título.

Definitivamente, em Dogma e Ritual de Alta Magia, sua obra mais célebre, é que Levi, em vários parágrafos de profundíssimo conteúdo, descortina, segundo o que ele mesmo diz, mais do que deveria. Não raro, Levi, durante a obra, fala em parar de falar neste ou naquele tópico sob risco de falar demais. Vejamos, pois, o parágrafo da insônia:

Tais são os mistérios hieráticos do binário. Mas existe um, o último de todos, que não deve ser revelado: a razão disso está, conforme Hermes Trismegisto, na ininteligência do vulgo, que daria às necessidades da ciência toda a capacidade imortal de uma cega fatalidade. É preciso conter o vulgo, diz ele ainda, pelo temor do desconhecido; e o Cristo dizia também: “Não lanceis vossas pérolas aos porcos, para que eles não as pisem, e voltando-se contra vós, não vos devorem”.

A árvore da ciência do bem e do mal, cujos frutos dão a morte, é a imagem deste segredo hierático do binário. Este segredo, com efeito, se for divulgado, só pode ser mal compreendido, e concluir-se daí a negação ímpia do livre arbítrio, que é o princípio moral da vida. Está, pois, na essência das coisas que a revelação deste segredo dá a morte, e, entretanto, este não é ainda o grande arcano da magia: mas o segredo do binário conduz ao do quaternário, ou antes procede dele e se resolve pelo ternário, que contém a palavra do enigma da esfinge tal como tinha de ser resolvido para salvar a vida, expiar o crime involuntário e assegurar o reino de Édipo.

(Eliphas Levi, in Dogma e Ritual de Alta Magia, cap. 2: “As Colunas do Templo”.)

Desdobramentos

De qualquer forma, se a divulgação do segredo implicava em inevitável morte, isso poderia equivaler, talvez, em incompatibilidade com a vida neste plano de existência. Se você sabe por que existe, e você não deve saber, ao saber você deixa de existir. Se a ciência do Bem e do Mal é um conhecimento proibido, talvez se referisse à forma como os opostos fundamentais (forças opostas), movimentando-se em torno de um eixo (dualidade equilibrada pela origem, triângulo), criam a matéria e, portanto, o Universo.

Em posse de tais conhecimentos, seria possível criar e destruir universos inteiros. Por quê não? Talvez, o próprio futuro pudesse ser, definitivamente, predito e, daí, o livre arbítrio perderia seu sentido. A dinâmica da evolução do homem, encarnada nos princípios morais de justiça e misericórdia, seria neutralizada.

Ainda assim, a função tentadora definitiva do “segredo” é a onisciência, o conhecimento de todas as causas e efeitos possíveis. Sabendo tudo, pode-se tudo que se sabe e pode-se estar em todos os pontos daquilo em que nossa Consciência põe suas simbólicas mãos. Mas, Sophia é a “virgem do Mar”, pura: se você a profana, não ficará sem a devida punição. Ousas pagar o preço?

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