Nunca me considerei adepto do existencialismo, mas já me perguntei, por diversas vezes, os motivos que justificariam estarmos aqui. Para quê? De que serve, à evolução humana, todo esse processo de sofrimentos?

Promessas

Responderiam-me, quem sabe, que formamos (ao menos, nesse plano físico de existência) a única espécie animal com algum desenvolvimento, intelectual e moral, nesse sistema solar. Quiçá, da Via Láctea ou, mesmo, deste Universo. Certo. Hã?

Os incentivos que nos dão, para que possamos continuar atuando neste drama civilizacional, nos vêm em forma de promessas futuras: mundo vindouro, paraísos, virgens no Céu, planos de luz, união com o Criador. Acaso, não estamos unidos, agora mesmo, ao Criador? Respondem-nos que não, que há um “abismo” que nos separa de nosso Criador.

Estivesse Ele em algum local, que lhe servisse de trono, ou dentro de nosso Inconsciente, nada aliviaria, de fato, nossa angústia infantil pelo que há de colher a todos, mais cedo ou mais tarde.

Geração estúpida e fraca

Até algum tempo atrás, as pessoas não se incomodavam tanto com advertências em cemitérios, tais como Memento Mori (“Lembra-te que morrerás”) ou Hodie mihi, cras tibi (“Hoje sou eu, amanhã será você”). Hoje em dia, no entanto, às pessoas não é mais dita a Verdade, mas administrado um anestésico em forma de distrações sem fim, de modo a fazê-las passar pela vida como se nunca fossem morrer.

Imagem: Philippe de Champaigne, “Nature morte avec une crâne”. Musée de Tessé (Le Mans, França). Informações: clique aqui.

É quase inacreditável a forma com que as pessoas se escandalizam com o óbvio ululante, que grita nas ruas, que nos traumatiza nos hospitais e sob as pontes. Nos frigoríficos, futuros defuntos esquartejam os “eleitos” do dia, sob os olhares insensíveis dos capatazes humanos. Veem, por aí, uma caveira e caem em reações histéricas; jovens são levados para cultos sombrios; supostos iniciados encaram-na como símbolo de seus deuses trevosos; fanáticos ficam chocados e saem à caça de quaisquer blasfemos.

Por não saberem de seus deveres, são débeis; ao aceitarem a ignorância, morrem como indigentes. Por fim, bebem o “vinho forte” da alienação, são iludidas como cães famintos e abatidas como frangos gordos na época de Natal.

Ilusões a la carte

De que vale, pois, essa Vida, se a ilusão da imortalidade nos é induzida? Por um lado, reencarnações, a perder de vista, para experienciar o “necessário” e quitar seus débitos; por outro, o materialismo pútrido sob a forma de ignorância de massa, desprezando aquilo que deveríamos fruir.

Não seria mais sensato que pretendêssemos nos perpetuar através dos genes de nossos descendentes, ao invés de prolongar a velhice ou planejar as tais “outras vidas”? Não deveríamos nos contentar em deixar um legado para nossa espécie, como um todo, em fraternidade, do que preparar, entre excessos, uma aposentadoria solitária, com dois ou três puxa-sacos ao nosso redor?

A única certeza

Nascemos nus e sós; partiremos, igualmente, sós e despidos. A passagem, a dissolução de nosso veículo (corpo) físico atual, é a única coisa que iguala a todos. Se nos preparássemos para esse tempo, os desperdícios seriam crimes. Todas as oportunidades perdidas – de fazer um bem, de cumprir um dever, de amar, dormir e acordar em paz, de ajudar e deixar-se ajudar – seriam lamentadas, e não festejadas entre um carnaval e outro, diante de uma distração fútil ou de um banquete conveniente.

Imagem: Pier Celestino Gilardi, “Hodie Mihi, Cras Tibi” (1884). Informações: clique aqui.

Se a fartura significar – mais do que produção de virtude e busca pela Verdade – mesas cheias de bêbados com secretas mágoas, jovens com vontade de entregar-se à Morte prematura e futilidades voando como moscas sobre a carniça, então, a Morte é um alívio. Para a Natureza, para o demônio preso em cada um e para o estúpido ser encarnado, ao mesmo tempo, vítima e criminoso.

Queres saber a Verdade? Se sim, prossiga em sua busca. Mas, a Verdade não poderá ser renegada, depois de conhecida; não poderás dela esquecer o gosto, nada doce. A Vida é bela aos nossos olhos, mas pagamos a terceiros para assassiná-la, fatiá-la e embalá-la para nossos churrascos de domingo. Vivemos como necrotérios ambulantes, carregados de cadáveres e intoxicados com frustrações.


Se a Vida for uma mentira, recontada mil vezes; um pesadelo do qual não queremos acordar; se sua propagação consistir de uma praga universal, ao invés de um milagre divino; então, que sigamos lúcidos, como nosso único e último ato de coragem. Enfrentemos o monstro que nos devora, dia a dia, através do medo!

Por Júlio [Ebrael]

Blogger, amateur writter, father of one. Originally Catholic, always Gnostic. Upwards to the Light, yet unclean.

// Port.: Blogueiro, poeta amador, pai. Católico, casado. A caminho da Luz, mas sujo de lama.

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