Aqueles que já leram O Alquimista, livro do brasileiro Paulo Coelho, devem estar familiarizados com a expressão lenda pessoal. Se você ainda não leu este livro, mesmo que você não aprecie o Autor como pessoa, leia-o, pois vale a pena, ainda que eu discorde dele, atualmente, sobre vários tópicos.

Entretanto, tenho um entendimento diferente, trinta anos após acompanhar as aventuras do pastor Santiago, acerca do que seja, de fato, a tal lenda pessoal.

Para o Autor, lenda pessoal é a experiência de nos tornarmos naquilo para o que nascemos, pelo que descemos ao Mundo. Nem sempre, no entanto, é-nos simples, como parece, descobrir qual é a tal missão de nossas vidas. Ainda, segundo o Autor, encarnamos personagens que não desejamos encarnar, e seria isso o que torna nossas vidas em filmes sem sentido.

Eu tenho outra abordagem para o tema. Essa insistência em dizer que cada um tem uma missão a realizar na Vida me soa a demagogia barata, um remédio aromatizado para nosso cotidiano insípido. Não, não somos seres especiais, heróis em potencial, deuses encarnados à espera de uma chispa divina que, repentinamente, despertaria em nós o Hércules, ou a Xena, que existiria em nós. Acho que acontece, justamente, o contrário.

Encenação do herói

Voltemos às décadas de 80 e 90. Vamos recapitular cenas das quais muitos de meus leitores devem, ainda, se lembrar. Naquela época, meninos não brincavam de se transformar em super-heróis, nem as meninas de ser donas-de-casa, por terem tais personagens como exemplos de moralidade ou por desejarem ser policiais ou boas mães. Crianças crescem dentro de moldes adquiridos, não inatos. Não vou falar das reações das meninas, mas dos meninos, entre os quais, como um menino, também sofri.

Meninos, por estarem em idade de auto-afirmação, querem pegar um cabo de vassoura e fazê-la em espada para mimetizarem um poder que não têm; talvez, ainda precisem “transformar-se” em vingadores, descarregando em algum boneco, que lhe sirva como “judas”, toda a revolta por algum bullying da parte de algum coleguinha, irmão ou primo mais velho. Meninos não querem ser aquilo que encenam. Mimetizam, justamente, porque não são, e a Vida vai lhes mostrar que jamais serão, em condições normais. E essa certeza incômoda, que ele divide apenas com ele mesmo, no quarto sozinho ou durante o banho, ele carregará em seu Coração, para sempre.

Vitória sobre si mesmo

Meninos crescem em estatura, peso e em número de traumas. Traumas fortalecem os músculos durante algum tempo. Algumas dores, no entanto, tornam-se incômodos crônicos, dos quais eles tomam ciência plena quando se atrevem (e poucos o fazem) a passar por catarses, voluntária ou involuntariamente, e por iniciações (processos de entrada em si mesmos).

Será que o menino Jaspion enfrentará, de fato, Satangoss? Onde está o Mestre dos Magos, nessa hora? Será que ele é, como dizem, outra persona do Vingador? O menino corajoso, nessa hora, hesita, uma vez mais. Se ele avançar, verá no Vingador um ser cuja voz lhe joga na face tudo o que ele é, sem disfarces, e tudo o que ele vai ser, sempre. O Vingador é a voz implacável que o Mestre dos Magos não queria que o garoto da Caverna ouvisse. O menino, o antigo herói, vê-se humano, sem majestade, sem superpoderes, sem pompa. Nada mais é que um rei nu, diante do espelho.

Pintura representativa da sigla alquímica (em latim) V.I.T.R.I.O.L.: Visita Interiora Terræ Rectificando Invenies Occultum Lapidem (Visite o Interior da Terra; Pela Retificação, encontrarás a Pedra Oculta).

Guerra e Paz

Quem já fora, um dia, herói, senão Pinocchio, um boneco de madeira que, após ganhar vida artificial, morrera afogado, não sem antes enfrentar suas mentiras? O que dizer de Jonas, que foi engolido por uma baleia e passou três dias, em trevas, no ventre do animal que simbolizava o interior da Terra, como o V.I.T.R.I.O.L. dos alquimistas, maçons e rosa-cruzes?

Viver em trevas pode ser uma opção vergonhosa, mas não mais dolorosa que levar a Luz aonde ninguém, jamais, vai levar por você, a saber, ao “interior da terra”, que é o teu Coração. A Verdade sempre esteve ali, sem disfarces ou rios que manem leite e mel. Se você chegar ainda vivo ao “núcleo da Terra”, você oferecerá sua espada ao seu Deus. Mas, a Espada, que tem dois gumes, é sua própria Vida.

Fim da linha.

Por Júlio [Ebrael]

Blogger, amateur writter, father of one. Originally Catholic, always Gnostic. Upwards to the Light, yet unclean.

// Port.: Blogueiro, poeta amador, pai. Católico, casado. A caminho da Luz, mas sujo de lama.

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