Grande Pessoa


Escorpião, por Fernando Pessoa

GRANDE PESSOA

Para Fernando Pessoa, com admiração.

Grande Pessoa, o Fernando!
Quem me dera, pessoalmente,
aprender como um Graduando,
A transcender o que se sente!

Sob o Céu que me apreende,
E sob as nuvens, dançando,
Quero o Lume que ascende
E desce, à moda de Fernando!

(Ebrael Shaddai, 9 de Outubro de 2011, 13:04)

Professor Trajano e os Versos Íntimos


Sem dúvidas, a partir de 1994 o Plano Real veio nos facilitar (atenuar) um pouco a vida. Mas, se os preços não aumentavam tanto quanto antes, os salários também não acompanhavam o crescimento dos sonhos das pessoas. E ainda havia algumas pessoas que sonhavam em ganhar sobre a dificuldade de outras. A fórmula de alguns era simples, agora que a moeda se estabilizara: ganhar muito com coisas de pouca qualidade, gastando pouco, se possível, tirando até do seu prato, economizando, assim, obsessivamente.

Em 1996, no segundo ano do Ensino Médio, tínhamos um professor de História que trabalhava mais ou menos encima dessa cartilha. Vou chamá-lo, aqui, de Trajano, por razões óbvias, aproveitando do nome do imperador romano muito citado pelo tal professor.

No primeiro dia de aula, ele já chegou à sala com passadas largas, como se estivesse em uma caserna romana. Só nos faltava ouvir um Ave, César da boca dele. Ele resmungou apenas um Boa noite, antes de nos introduzir aquilo que seria a tônica das aulas dele por um bom tempo: o livro de História escrito por ele.

O professor Trajano era um sujeito atipico, na perfeita acepção do adjetivo. Em sua cabeça, o Hemisfério Norte era quase todo desértico como uma tundra gelada. Apenas a partir do Equador craniano é que começavam, timidamente, a surgirem os primeiros sinais de uma savana capilar, com escassos e ralos pelos a lhes descerem pelas orelhas, terminando por afluírem em dois rios laterais para uma barba de três dedos de altura, à melhor moda de Sócrates. Dizia comigo que ele era o próprio Socrates, com óculos de hastes demodés e dentes corroídos pelo tabagismo.

Ele era (ou é ainda) um homem de rígidos hábitos e práticas. Em matéria de História, não admitia, de um aluno, tratamento inferior ao de um gênio, pelo qual ele ficava deveras envaidecido. Religião: católica. Partido político: aquele ao qual o pároco estivesse afiliado. Estado civil: casado com dona Estela… e filho da Virgem Maria. Se distinguia dos outros docentes por sua camisa cáqui e pela inconfundível e única calça jeans. Isso mesmo: ele só usava uma calça jeans, religiosamente, todos os dias. Ele alegava lavá-la diariamente, mas, por vezes, a coloração encardida da peça o contradizia insistentemente. A calça quase poderia sair correndo dele se, num deslize, ele afrouxasse o cinto. Quase podíamos ouví-la pedindo socorro.

Na sua apresentação à classe, no primeiro dia de aula, aproveitou para apresentar também seu novíssimo livro de História, História sem Mistérios. Estipulou uma cota de R$ 10,00 por aluno, sem direito a cópias – todos os alunos teriam que, obrigatoriamente, comprar o tal livro. Se ele pegasse alguém com alguma cópia do livro, alertava ele, ameaçador, a rasgaria diante de todos. Definitivamente, aquilo não era uma democracia!!

Direitos autorais à parte, ele não recordava, ou fingia não lembrar, que dava aulas a um colégio público. Lamentasse ele ou não, estivesse ele frustrado com sua malograda carreira literária ou não, nem todos os alunos ali, assim como nem todos os pais, podiam pagar pelo livro que, sinceramente, era mal escrito, mal editado, mal pesquisado, onde a única ilustração era a foto de seu autor, nada artística. Naquela época, eu fazia muitas coisas com dez reais. Dez reais, em 1996, era o almoço e o jantar de muita gente.

No fim do ano, sabendo da ojeriza que poesias, principalmente em língua portuguesa, causavam no professor Trajano, na época do Amigo Secreto, embora o nome dele não houvesse sido incluído no sorteio, toda a classe combinou de comprar uma calça jeans novinha, em Brusque, e entregar esse presente ao mesmo tempo que alguém estivesse declamando uma poesia de Augusto dos Anjos – Versos Íntimos – sugerida por mim na época, que eu achava a cara dele.

A reação (interior) de nosso querido professor todos podem deduzir: a pior possível. A reação (exterior), para inglês ver, também todos podem supor: previsível. Teve de engolir nosso presente de grego, pra não fazer desfeita diante da diretora, que estava visivelmente constrangida, conhecendo-o a anos. Entre tremores de lábios, cabisbaixo, conseguimos, com muito esforço acústico, ouvir um Obrigado, classe!

Essa, depois de catorze anos, é para o senhor, professor Trajano:

Versos Íntimos (Augusto dos Anjos)

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Referência: http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp

A Bohemia Fundamental e a Companhia dos Poetas


Pelo título, não quero que pensem que estou enchendo a cara, como faziam alguns Grandes Poetas e Escritores. Nem encho a cara, nem chego à sola dos pés de nossos Grandes Mestres Poetas. E a palavra Bohemia, hein?!? Está escrita propositalmente de forma errada, na grafia arcaica, pois não é ao sentido etílico-alcóolico que me refiro. Me refiro ao estado de alma do poeta, numa gestação de emoções em seu interior, como quem vai pôr os bofes pra fora, depois de ter tomado meio tonel da Mineirinha do Engenho Velho.

E é essa Bohemia que me invade e bagunça tudo aqui dentro do peito. Às vezes, é uma bagunça organizada: um vento assola e outro, logo em seguida, reorganiza tudo em versos e estrofes. Pode ser também uma Bohemia prosaica, trivial, em prosa sem versos, parágrafos sem teor definido, porém caindo como um volume de mercúrio sobre minha cabeça. É a Bohemia que não é cerveja, mas que, no calor da falta do que fazer, numa mesa de bar ou da varanda, é a salvação daquele que quer falar a verdade sem ter a quem se dirigir.

Cá estou, numa entrevista com os Poetas de outrora, numa autografia furtiva, escrevendo um pálido ensaio sobre mim mesmo, poetizando com as palavras agridoces de nossa Antiga Antologia.


Eu estou na fase da Dança da Chuva, rogando aos céus por uma resposta que não chega. Abro meu peito para que um analista cego me destrinche e me diga qual é o diagnóstico da alma. Rígido Silêncio. Aquelas vozes, que agora não passam de tons agudos irritantes, das Musas, pedindo por caneta e papel, não me falam coisa alguma. Ficam lá, a entoar melodias monótonas aos marinheiros e camponeses…

Enquanto isso, eu aqui… Eu aqui, com minhas quimeras e afagos na alma, junto de Augusto dos Anjos.

E eu? Fico aqui com o José do Drummond. E agora, José? Ele retruca: “E agora, Ebrael? O Amor é isso mesmo“. E o Poeta ainda debocha do meu rosto suado, depois do Amor:

– Hoje beija, amanhã não beija; depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Mário (o Quintana, pois o Lago se absteve de falar) me fala, à sua maneira, que eu nasci de parto mental prematuro. Me diz que estou na idade de estar vivo, e vivo demais. Eu, por um momento, duvidara disso.

Peço um cuba libre, bebida de gente solteira de alma, solta no mundo, presa na multidão. Acendo um miserável cigarro. Vinícius, num impulso, pega em seu violão e cantarola:

Você que ouve e não fala;
Você que olha e não vê,
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender…

Antes que continuasse o diálogo, lhe disse que eu tenho de aprender mais sobre a Paciência, essa mucama caseira que acorda todas manhãs sempre com o mesmo arranjo de cabelos.

Fernando Mendes Campos me disse, e o haveria de repetir pelo resto da noite, que a Rosa era a Rainha do Universo. Eu, no entanto, só soube perguntar-lhe onde ela morava. Certa vez, me lembro de ter feito uma prece para uma rosa vermelha do quintal de um vizinho, para que me trouxesse de volta uma mulher que amava. Mas quem me respondeu foi Papai Noel, por meio de um cartao virtual, enviado por engano por ela, desses que se enviam em massa pelos malditos e-mails impessoais.

E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça… Quando tudo está perdido… e quando o sol bater na janela do seu quarto…“, me soprava Renato Russo. E eu, Renato? São ainda quatro da manhã. Essa Bohemia que não se acaba. Essa vontade de vaguear por linhas sem fim, que dela falam…

Teu olhar não diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro…

Agora compreendo o que significava, intrinsecamente, a ânsia dos navegantes. E compreendi também a razão dos tonéis de rum. Entendi e calculei mentalmente as dimensões da nostalgia dos que empunhavam lunetas e astrolábios, buscando vislumbrar a Terra Prometida no horizonte aquoso. Pois:

Navegar é preciso, viver não é preciso.

Vertigem (Recortes)


Nascer do Sol

Nascer do Sol – “Re-flexo”
O nascer do Sol
será para todos
Mas só alguns o sentem…
Os sentimentos de Amor
Não são quimeras nem utopias
Nem para sofrer vasta dor…



Stromness, Geórgia do Sul
Stromness, Geórgia do Sul – “Re-corte”
…É o sentir de emoções
De muitos cruzamentos
De Amor nos corações…
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