A abelha, a coruja e a vara


O menino era ladeado, à média distância, por seus dois preceptores, Merum e Nagad. Os três permaneciam na praça deserta da pequena cidade há mais de um mês. Graves testes deveriam assaltar o garoto em preparação para voltar ao seu país nas montanhas do Leste do Rio, onde esperavam-no para assumir o trono no lugar de seu regente atual. Assumiria ou não?

No âmbito das provas morais e espirituais, bem como da práxis mística que deveria exercitar, seus dois preceptores assentaram-se, lado a lado, diante do menino vestido com uma túnica azul e coberto com malha fina de ferro. Calçava sandálias de couro cru. Merum, então, propôs ao garoto um súbito enigma, apontando para a palmeira solitária no meio da praça:

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Jeremias não morreu!!


Jeremias não morreu. Como dizia minha avó, ele deitou, mas não fez a cama. Casou-se cedo. Separou-se tão rapido como se casou. Envolveu-se de novo com mulher, ainda mais rapidamente. Jeremias não queria morrer, pois morrer, para ele, significava acreditar no que diziam os padres: morrer é não ter consciência. Ele queria mais: ele desejava não estar entre os vivos e ter consciência disso, de que se livrou do fardo de estar vivo.

Jeremias cursou Arquitetura. Desenhou prédios, um museu e planejou o interior misterioso dos antros do Forum. Mas não se contentou com tão pouco em alma, em meio a tanto concreto. Lembrava-se de sua mãe ridicularizando seu pai, ao contar que ele, ao cortejá-la, falava que iria alcançar as estrelas por ela. Quando criança, ele queria ser astronauta, mas ele temia morrer dormindo ao atravessar de volta a atmosfera. Ele queria ter a consciência de tudo. Quando Jeremias estava já com sua quarta mulher, ao saber que ela traía-o com o entregador de jornais (enquanto ele a traía com o projeto da sede do Jornal), ele desistiu de estar fixo na vida.

Jeremias esteve hospedado, para o espanto de todos, na garagem do fórum que ele mesmo idealizou. Foi removido para um albergue. Quiseram mantê-lo lá, mas ele fugiu. Ele vivia fugindo. Ele fugia da vida e da morte. Quando ele passava na frente da igreja matriz de sua cidade, ele virava as costas para as  beatas. Quando alguém lhe falava sobre o diabo,  ele começava a atirar pedras a esmo. Ele tinha tornado-se um andarilho, rejeitado, não pelo mundo, mas por si mesmo. Ele próprio se deserdara. A vida, de madrasta maledicente, passou a ser-lhe operadora de cobrança.

Jeremias vivia pelas escadarias, louco de pedra, a reverberar contra as imundícies que não havia visto ainda nas pessoas. Ele dizia que era justamente por isso que não ousava passar defronte a vidros ou espelhos, com medo de constatar ter-se tornado pior que aquelas. Suas únicas companheiras inseparáveis eram as pombas, com os olhos cinzentos ou negros, como a lhes confidenciar segredos, auferidos do alto das igrejas.

Certa vez, ele já andava em trapos esfarrapados, quando uma beata, ao sair da igreja,  interpelou-o:
– Meu filho, diga-me, o que aconteceu para você descer a esse nível?? O que seus pais devem estar achando disso no Céu??
Ao que ele respondeu, entre dentes careados:
– Já levantou da tumba e esqueceu de trocar a mortalha, velha??

Jeremias era motivo de chacota para uns adolescentes desocupados e de pena para outros. Mas aqueles não percebiam que invejavam o dinheiro que Jeremias deteve e a irregularidade das suas noites, tudo mesmo que desejavam. As pessoas que sentiam pena dele simplesmente temiam o seu mesmo destino, ou pior, o inferno que acreditavam ter para si ou para os seus, reservado há muitas eternidades.


A mais louca sina teve o arquiteto, tão querido na cidade, depois do mais cobiçado sucesso. Mas bastaria um tropeço qualquer para que ele fosse noticiado ainda com mais entusiasmo. Pois, a língua doce agrada ao paladar e salta aos olhos, mas é a acidez que atiça o apetite das massas. No meio da revolta, o movimento rotatório de sua alma conturbada de dores o arremessou no redemoinho da vida sem rumo. Em tal vida, Jeremias descobriu a liberdade das múltiplas visões que ele poderia ter, assistindo tudo de diferentes ângulos, dormindo debaixo de várias pontes. A ausência de posses o fez perceber que ele se degeneraria mais rápido, mas também que tudo o que lhe dera prazer ilusório também o faria desiludir mais tarde. Desiludiu-se cedo demais!! Por isso, ele estava ali, dentro de uma tumba no mundo, com gente lamentando seu deambular asqueroso e seus mulambos catinguentos.

Mas é o que fazem com seus mortos, não é mesmo?? – perguntou-se. A diferença é que mortos já não tem olhos para verem suas mulheres lhes sorvendo a fortuna com esbórnias, nem seus filhos crescendo sem direção. Mortos não sentem o vento no rosto, quando todos os esqueceram há muito, e quando até os deveres e os impostos não mais lhes importunam. Espantalhos de si mesmos é o que são esses mortos-vivos, fugindo do espelho como se tivessem realmente alguma esperança que os anos não tivessem passado.

Lá está Jeremias, olhando para a poça d’água. Chuva de verão  açoita seu lombo. Olha para a poça como Narciso para o Lago. Se apaixonou por sua Liberdade, não como para uma rota de colisão entre astros, mas como a única forma de sair do olho do furacão, e vislumbrar a vida fora dos sofrimentos “normais” e pesados. O sofrimento agora era leve. Deixou as roupas caras como um espírito que descansa do corpo que não mais anima.

No dia em que o último suspiro de amor se foi com a última lágrima derramada, ele secou de sua fonte de angústias. Ele soltou a corda que o mantinha atado à sua morte, vivida em meio a ilusões. Ele disse para si que estava morto para essa vida. Mas qual a vida que não morre a cada adormecer?? Qual vida não morre em cada ar que se expira??

Qual não é a vida tal um recomeço em cada minuto em que o sol se apronta para nascer?? A chuva cessou. Jeremias parou de pensar. Ele estava cansado, e adormeceu na poça d’água. Jeremias achava que estava, enfim, morrendo de verdade. Mas era somente mais um final de tarde.

Jeremias não morreu, embora, ainda que queira, ele não tenha consciência disso.

Pedro Boaventura, à beira do caminho.


Seu nome era Pedro. Pedro Boaventura. O sobrenome (*) pressupõe felicidade, fortuna. Mas Pedro não era feliz. Pedro tinha, e sabia disso, características que poderiam fazer qualquer homem feliz e bem-sucedido: era carismático, razoavelmente charmoso, inteligente. Mas nada dava certo para ele. Pelo menos, era isso que ele achava.
Pedro nascera em uma pequena cidade do extremo oeste de Santa Catarina, chamada Palma Sola. Como toda aquela região, Palma Sola era eminentemente agrícola. Seus pais eram lavradores pobres, como a grande maioria na região o era. Eram os idos de junho de 1978, quando ele veio ao mundo. Uma chuva de granizos havia devastado a minúscula roça de milho, no começo do inverno daquele ano. Sua mãe, Maria Bernadete, havia dias que estava debilitada pela subnutrição, jazia na cama, aparentemente sem forças para parir. Ele nasceu abaixo do peso, naturalmente, de parto prematuro, depois que seu pai, Marco Luigi, um rude e ignorante lavrador, batera nela por não ter lhe feito a janta, pois não conseguia mais cortar a lenha para o fogão.
Passaram-se dois meses até que conseguissem batizar o menino na capela do povoado onde tinham roça. As dívidas acossavam a família, e só conseguiram pagar as custas do batizado à base de doações de vizinhos. Até aquele momento, não haviam decidido qual seria seu nome. Num momento de descontrole e desespero, Marco resmungou perante o padre, na hora da unção:
 – Que Deus tenha misericórdia desse pobre diabinho, pois se um dia não tiver o que dar de comer ao pestinha, eu, ele e a mãe vamos ter que comer, nem que seja, sopa de “pedra”!!
Maria, sua mãe, num lampejo, achando se tratar de um sinal divino, bradou:
 – Já sei! Ele há de se chamar Pedro. Nem que eu tenha que engolir pedra, ele não há de passar fome.
Parece que as bênçãos da mãe foram providenciais!! A roça deu conta de prover o mínimo para o sustento de Pedro. Pedro cresceu, ainda assim, um menino franzino. Riam-se dele, porque não queria ser lavrador, mas sim doutor. Diziam que ele não tinha nem sandálias de couro cru, como poderia pensar em calçar alparcatas?? Queria ser advogado, pois queria pôr na cadeia os homens que, a exemplo de seu pai, espancavam suas mulheres-escravas. E agora, depois de crescido, ainda apanhava de seu pai, todas as vezes que dizia querer ir pra escola, e não ir para a roça, às 5 horas da manhã.
Tudo corria normalmente na vida de Pedro, até aquele momento. Até mesmo as surras de relho de cavalo, quase que diárias, eram usuais para um garoto de 11 anos do interior de Santa Catarina.
Um dia, ele quis comprar uma pipa, na quermesse da festa de São João, no mês de seu aniversário. Pedir apara o seu pai dar-lhe dinheiro pra comprar, ou fazer para dar-lhe de presente, estava fora de cogitação. Era possível que ele ficasse tão “leve” por causa de uma sova, que o vento poderia levá-lo como a uma pipa. O vigário da paróquia da cidade precisava que alguém engraxasse seus sapatos para a solenidade de São João. Pedro aprendeu em dois tempos como fazer o serviço. Ganhou alguns tostões, suficientes para comprar a pipa. Chegando à quermesse, onde estava o pipeiro?? As pipas tinham sido todas vendidas, e se foi o pipeiro!! – lhe disseram. E ainda por cima, seu pai o flagrou com o dinheiro na mão, no meio da multidão, e ele foi levando com a cinta no lombo até o casebre onde moravam. Depois de soluçar de dor durante horas, o menino falou algo que, ao invés de melhorar sua vida, o trouxe à realidade de um inferno que não existia ainda dentro dele:
 – Diabos!! Nada dá certo nessa minha vida!! Poxa, que merda de vida!!
Pedro cresceu sem namoradas. Só estudava. Estudava e apanhava. Por pouco não morrera de uma surra que levou de seu pai, com socos no peito e nas costas. Tinha vergonha das meninas, porque sabia que não poderia levá-las em casa, pela animalidade de seu pai. Pedro começara a ter fantasias sexuais um pouco estranhas. Quando se masturbava, tarde da noite, o fazia pensando em mulheres grandes e altas, que pudessem bater no seu pai. Por isso, Pedro tinha poucos amigos, e pouco saía além da roça de milho, a soltar pipa e subir em árvores. Somente nessas ocasiões poderia, sem recriminações, sonhar livremente.

Na escola, ia bem nos estudos rudimentares. Apesar disso, as meninas da cidade, justamente as mais lindas, troçavam por ele ir com uma sandália remendada com pregos. Todos na cidade o conheciam por apagar os erros, no caderno fino, com os dedos. Um dia, fez uma borracha artesanal com elásticos de látex, usados em hospitais da região, trazidos por um médico. Foi a piada do mês. As meninas, algumas pelo menos, se riam dele por ele ser o “caxias” que não lhes dava bola. Ele era um garoto bonito. Os rapazes sabiam disso, e lhes faziam côro. Ainda assim, querendo abandonar a escola, por traumas como esses, e por nunca conseguir amarrar a sandália adequadamente, que já se desfazia com os anos e não lhe servia mais, continuou até certo tempo. Um belo dia, deixou a escola, e foi ajudar seu pai na roça, e apanhava ao anoitecer, sempre que tentava ajudar seu pai, torto de bêbado, a chegar em casa vivo. Nunca mais conseguiu vaga novamente para estudar nas escolas da cidade.

Já tinha 21 anos, quando a única coisa certa, sem conflitos, que vivera em sua vida, o amor pela sua mãe, fora afrontada de forma fatal. Nessa época, Pedro trabalhava em uma sapataria da cidade, na sapataria de seu Valdivino, , como aprendiz. Seu Valdivino era homem bom, mas deveras muquirana. No entanto, Pedro era grato pela oportunidade. Ao chegar em casa à noite, encontra seu pai com a cara na mesa, dormindo e roncando, como um porco cachaceiro que era. Perguntou-lhe, despertando-o, pela mãe. Era estranho que, às oito horas da noite, sua mãe não estivesse com a barriga encostada no fogão à lenha, cozinhando feijão. Chorando e já sentindo o aroma fatal de sangue, vai ao quarto. Torcia para que sua mãe, já com 42 anos, estivesse apenas desmaiada. Mas desmaiada estava, definitivamente. Tinha o crânio afundado por um martelo caseiro, que estava a dois metros dela, encima da cama. Em vão, tomara-lhe a pulsação. Teve vontade de cravar o cutelo, pendurado na parede da cozinha, no pescoço de Marco. Mas, ouviu sua mãe dizendo que “amaldiçoado o filho que levanta a mão contra seu pai.” Chamou a polícia, que levou seu pai para a cadeia da cidade. Lá, o pai, envelhecido mais de 10 anos ao saber o que tinha feito, se enforcou com sua cinta, com a complacência dos policiais, então.
Pedro saiu da cidade. Fugiu daquela casa, como o diabo foge da cruz, ele, o diabinho que comeria pedra, e que estava comendo agora o pão que o diabo-pai havia lhe amassado. Mas antes, encarregou-se de por fogo em toda a casa, salvando apenas a foto de seu batizado, onde estava sua mãe. A metade contendo seu pai, ele a recortou e queimou. Pediu suas contas na sapataria, na qual estava desde os 14 anos, sem ser efetivado, e foi-se embora, sem rumo, à base de caronas nos caminhões de carga de hortaliças que saíam da cidade.
Por que nada estava certo em sua vida?? Por que a vida havia lhe tomado a pessoa para quem queria fazer tudo certo?? A mãe era a única referência de carinho que tinha. Por não ter tido coragem de expulsar seu pai de casa e defender sua mãe, achava que não teria coragem de mais nada. A mulher-salvadora-gigante, das noites de suas masturbações, não havia chegado para salvar os dois. Não acreditava que alguma coisa voltasse a fazer sentido.
Dois meses depois de ter saído com uma mala, contendo meia-dúzia de peças de roupa e seus documentos, Pedro havia perambulado por diversas cidades, afogando as mágoas em cachaça, já que ainda era virgem. Não sentia-se disposto a conquistar mulheres. Não que achasse que fosse gay. Mas, já que a mulher que sonhava encontrar na fantasia de guri, tão doentiamente, a quem chamou Joelma, não havia lhe aparecido, se desiludiu com as mulheres. Estava, a essa altura em Mafra, no planalto Norte catarinense.

Seu dinheiro havia, enfim, acabado. Tomou uma última bebida, num só gole ávido, agoniado que estava. Era uma dose generosa de licor de absinto, vendido clandestinamente numa bodega. Começou a delirar, triste que estava e pelo teor tóxico da bebida, sentado ao meio-fio, perto da estação rodoviária. Vê, num lampejo, um homem se aproximar dele e sentar ao seu lado. O homem lembrava a descrição de alguém que sua mãe jurava, de pés juntos, ter visto quando criança, encostado no carro-de-boi de seu avô materno. Um homem de barbas ralas e olhos negros, vestes surradas. Mais parecia um mendigo, mas sua mãe dizia ser Jesus.
O homem lhe pergunta:
 – O que fazes aqui, à beira do caminho?? O que procuras??
 – Procuro um carro do hospício. Não sabe de um que passe por aqui?? – respondeu Pedro, sarcasticamente.
 – Não, não sei. Mas por que achas que precisas de um??
 – Por que achas que estou aqui?? Te respondo: porque nada, absolutamente nada em minha vida, foi como eu sonhei. Nunca consegui terminar nada nessa vida. E tudo que conseguia começar se desfazia com tantas pedras no meu caminho. Não sei porque minha mãe (que Deus a tenha!!) foi me dar esse nome.

Fez uma pausa, retirou o excesso de saliva do canto da boca, cheirando à cachaça velha, e continuou:

 – Nunca sonhei em ser sapateiro. Nunca quis ver minha mãe apanhar e morrer com  o crânio arrebentado. Nunca sonhei em ser incomodado por um mendigo a 500 km de onde eu nasci. Nunca sonhei estar aqui. Você acha que isso não deixaria alguém “fora da casinha”??

O “mendigo” pensou bem no que ia falar. Enfim, disse-lhe:
 – Quanto mais fugimos da cruz, mas os pregos surgem em nossas mãos. Para merecer o paraíso, não é necessário conhecer o inferno. O inferno existe desde que o paraíso surgiu.
E concluiu:
 – Não sou Jesus, não, antes que eu me esqueça de falar!! E uma última coisa: você está parado, aqui, à beira do camnho. Para que as coisas dêem certo na vida, apesar das paradas constantes, é preciso estar a caminho!!
 – Você também é louco!! Só pode ser – resmungou Pedro.
Quando levantou novamente a cabeça, parece que o mendigo ficou mais baixo, e lhe disse:
 – Quem é maluco aqui é você, rapaz!!
Um ônibus queria deixar a rodoviária, e Pedro estava deitado na saída dos veículos. Meio lesado ainda, com fome, Pedro foi arrastando sua mala pelo caminho que leva a Joinville, repetindo por muitas horas, como um lunático:
 – O importante é estar a caminho… o importante é estar a caminho…

Depois disso, Pedro nunca mais fora visto, apesar das especulações, de algumas testemunhas e do motorista que poderia ter passado com um ônibus sobre ele, de que estivesse perambulando atrás de comida pela região, como um andarilho, arrastando sua mala. O caso do andarilho Pedro, misterioso e lunático,logo correu as cidades do Palnalto Norte. Tempos depois, mais ou menos um mês após o episódio da rodoviária, seu corpo foi encontrado por um motorista de caminhão que havia encostdo seu veículo no acostamento de um estrada vicinal em Três Barras, próxima de Mafra, para urinar. Seu cadáver já estava em decomposição acelerada, carcomido de vermes. Fora identificado por seus documentos, constantes de sua mala e por exame de arcada dentária.

Os moradores de Palma Sola ficaram sabendo da trágica ocorrência envolvendo Pedro, a terceira morte de uma mesma família em menos de 6 meses. Numa missa, oferecida por seu antigo patrão a seus pais, seu Valdivino avistou uma pessoa familiar ao lado do altar, na hora da consagração da Hóstia Era Pedro, maltrapilho, com a face cadavérica e cabelos desgrenhados. Logo, notou a presença de seu Marco, pai de Pedro, ao lado desse, caído, com o pescoço arroxeado.

Pedro pediu, encarecidamente:

 – Rezem por minha mãe, que ainda sofre pelo cão sarnento que a matou, pois que por ele já há quem o vele. Os homens que dele cuidam não desejam orações nem sinais-da-cruz.

Num súbito lampejo, percebeu que Marco não se enforcou sem ajuda. Pedro mostrou aos olhos perplexos de seu Valdivino o que acontecera. A cinta que Marco usou pra se enforcar era sua, mas estava sendo usada por engano por Pedro naquele dia. Pedro apareceu na delegacia para pronunciar as últimas pragas contra Marco. Num gesto de ira santa, Pedro esticou a cinta de seu pai, que ele usava, para dar a surra que nunca teve coragem de lhe aplicar. Num arrombo de remorso, Marco pediu para morrer e pegou, sem  que Pedro resistisse, a cinta da mão de seu filho, a quem costumava apelidar de diabo. Amarrou a cinta na grade da janela, alta que era e, sem que Pedro quisesse evitar e ainda com um olhar frio,  se dependurou para a morte, sendo seu próprio juiz, seu carrasco e o condenado. Em segundos, o corpo do pai de Pedro pendia, sem vida, na parede da prisão. Quando deu por si, Pedro saiu do corredor das celas, duas apenas, e deixou a chave da cela com Sílvio, sobrinho de sua mãe, o qual jurara que nunca havia  visto Pedro na delegacia. Pedro saiu pelos fundos da delegacia, pulou o muro de trás e desapareceu pelo mato, em direção à sua casa, para destruir de vez o templo do terror onde vivera sua vida, e morrera um pouco de si, ao ver a mãe ensanguentada no soalho da casa.

Hoje, reza a tradição da geração passada, que mulheres da região oeste de Santa Catarina ainda chamam Pedro quando estão sendo espancadas por seus maridos para lhes salvar. Agora, Pedro Boaventura é invocado como Pedro da Cinta. Dizem vê-lo nas noites de São Joaão, a estalar sua cinta marrom, atrás de homens cruéis para castigar, pois como ouvira um dia Pedro, …

O importante é estar a caminho!!

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(*) Boaventura sobrenome fictício.

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Créditos: Ebrael Shaddai

“Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.”

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