Grito da Esperança


Assim, muda o mudo
E fala a tal mudança.
Permanece isso tudo
Em perfeita bonança.

Cede o cinto à pança
Daquele guloso parrudo,
Indiferente ao ossudo
Rosto faminto da criança.

Ao rapado ou ao barbudo,
Ao de tez fransida ou mansa,
A mudança não lhe é escudo

Para fugir ao grito mudo
Do faminto de esperança,
Pois a esperança redime tudo.

(Ebrael Shaddai, 2 de abril de 2016)

Soneto Sinuoso


Estranhos são os Caminhos da Vida,
Esses que dizem perfazer o Destino:
Afastam-nos da meta tão querida
E nos fervem os pés em desatino.

Tão doce é a mais amarga bebida
Que bebo por mim, assim, pequenino.
Grande sou contra meu assassino,
Aquele de minha alma combalida.

Não subverto minha mente em vão,
Num vão acerto do egoísmo cretino,
Nem chamo boa à perversa descida.

Nutro o desejo de cumprir aquela lida
Do soldado que ainda parece menino,
Assim na estrada como no Coração.

***

Angeli non aiunt, sed agunt. (“Os anjos não dizem amém; eles agem.”)

(Ebrael Shaddai, 1 de abril de 2016)

Balada do Triplo Caminho


Totem verde e petrificado,
Estante ao raio hipnótico,
Se abre ao buraco caótico
No caminho tão ressequido.

O olhar sertanejo psicótico
Fixa-se, inerte, trincado,
Em um horizonte narcótico,
Ao fim do caminho esquecido.

Ao andar, assim, quase robótico,
Diz-lhe o Destino, tão retórico,
Que a Morte não é só ditado
Na boca do caminho vivido.

***

Autor/data da composição: Júlio César Coelho (Ebrael), 01/01/2016, 16:13. Todos os direitos reservados.

Composta em um comentário ao soneto “A seca do quinze“, de Viviane Vasconcelos.

Dados da Foto: Habitante sertanejo do Estado da Paraíba, Brasil. Publicada em: 21 de julho de 2010. Visualizada em: < https://goo.gl/KdBkEJ >. Direitos reservados à Brazil Photos Stock Photography.

Meu último leito


Não nos damos conta, mas morremos, de certa forma, ao fim de todas as noites. Vinte e quatro horas de um ciclo que parece, por vezes, não ter fim. Cansamos do dia, cansamos da vida que levamos. A vida pesa; corpo e mente sofrem. A Natureza vem e nos concede um recover para os membros, para os olhos. Dormimos. Milhões de vidas celulares repousam, alguns para acordar no dia seguintes e outros para dar lugar às novas vidas.