Epitáfio do Escorpião


O escorpião é um ser extremamente contraditório. Ele, no entanto, não contradiz a si mesmo, mas às tendências ilusórias das coisas. Escorpião abomina as ilusões, ainda que, como ser ainda não liberto da teia do mundo, delas se utilize para se anestesiar.

Do limo da pedra sob a qual se protege extrai a frescura que o alenta. Da terra em que jaz dormente, ele busca a solidez do permanente. O sol nasce, ele se esconde. O calor abrasa, e nele se delicia, subjacente. A noite chega, ele ressurge, para dar vida às sombras, deglutir os sonhos dos beduínos e sorver a essência do que apenas aparenta estar morto.

O escorpião não se utiliza de filtros miraculosos para curar sua dor. Ele, simplesmente, se utiliza do que de mais doloroso há em seu interior como vacina contra seu próprio veneno. Nele, eis sua perdição e redenção, ignomínia e glória. A punção de um escorpião pode ser tóxica, mas é um teste de resistência à dor. O escorpião é de extremos, ao mesmo tempo, pontiagudos e perigosos. Mas, entre um e outro extremo, constatamos segmentos e transições. Nem o inferno ou céu se alcança em um passe de mágicas. Há degraus, há anéis, há segmentos e intersecções.

O escorpião não matou o sapo do rio. O sapo do rio não foi “burro”. Não era da natureza do escorpião morder “sem intenção”. O sapo não era ingênuo inconsciente. Em tudo, há escolhas. Há escolha inclusive quando renunciamos à escolha. Não se magoa alguém porque se quer. Não se é enganado, mas nos deixamos enganar. O escorpião sentiu o vento em seu rosto. O sapo ouviu o rumor das águas. Só há enganadores quando vê-se a si como enganado. Sem a Lei, não haveria a noção objetiva de pecado. Não haveria bem sem a noção de mal.

O escorpião cansou de se ver enganando. O escorpião cansou de deixar a cargo dos outros do rio a tônica de sua crítica. Escorpião deixou de querer ver a água turva que os peixes vêem.

“Mas como podem querer imergir e chafurdar no lodo do fundo do rio?? Como podem se contentar??”

Escorpião cansou-se do Rio. Cansou-se das águas e de sapos masoquistas. Cansou-se do sadismo dos que não se conformam com as escolhas que fazem. Fartou-se dos que se lamuriam das pedras que delineiam os caminhos e do limo que lhes testa a coragem. Entediou-se dos que dizem não saber de nada depois de ouvirem repetidas as verdades como ladainhas. Fica estupefato quando ouve os peixes declararem que “Deus escreve certo por linhas tortas” tanto quanto que não são os bêbados que camabaleiam, e sim que o Mundo que gira rápido demais.

A partir do momento que vê o cavalo xucro sofrer um abalo em seu trote de corcel e quando percebe as águas sem o mesmo refulgir da luz do sol, apenas refletindo palidamente a turbidez do céu nublado, ergue seus olhos ao céu, perplexo. Na ocasião em que a tarde cai e o frio lhe arrepia as pinças, é que então o Escorpião declara que é chegado o inverno d’alma do seu mundo. O vento entoa lúgubre sinfonia de lágrimas, a dispersar as lembranças do verão que se foi. Mas ele não chora. Ele agradece a honra de ver o tempo passar diante de seus olhos, e não se iludir, não se enganar. As flores sazonais que se lhes apresentam são sintomáticas de sua sensibilidade à diversidade de mundos: não são as flores, são seus olhos.

Escorpião não quer mais que a água lhe molhe o corpo. Não deseja o frio olhar dos peixes mortos, fingidos, dissimulados, a nadar sem direção nesse rio das emoções. Escorpião não quer mais a imprevisibilidade das correntes, não almeja a cachoeira após a corredeira. Ele quer a pedra ao sol. Ele deseja a Paz sem culpa, deseja ser culpado por querer a Paz que não vêm do túmulo. Ele não deseja descansar. Ele apenas visa não lembrar que vê mais além, pretende não ser mais a Finalidade do Pensamento, mas o Pensamento Final, o Gozo Final, o Ponto Final.

Relógio de Lilian


Essa poesia escrevi a uma Amiga muito especial, que já mora em meu Coração:

O Tempo Luminoso

Tempo, meio-Tempo:

Vida não é sofrimento;

É sim, contentamento.


Tempo, pouco Tempo:

Um ano é apenas um Dia

Nas mãos de Quem cria.


Tempo, todo Tempo:

Vida é Amor de Deus

Que sempre inicia

Não acaba,

num  Ano, Num Dia…


Adoração sem sacrifícios, Amor sem cálculos


Texto inspirado no artigo Sete Tolices do Mundo (por Mahatma Gandhi), in O que é isso?

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Indolor deve ser a renúncia. É o que pensa todo ser humano. Ninguém se interessa por um “sacrifício” que venha a tolher suas conveniências pessoais. Poucos indivíduos ainda cogitam a possibilidade de se internar num claustro, sem sua carteira, sem ventilador, com peças de roupas que lhe sufoquem no verão ou que não lhe protejam do frio no inverno. Poucos ainda supõem deixar de lado seu egoísmo, sua vaidade, para adorar a um Deus que se manifeste no rosto coletivo, e não apenas aos seus próprios, diante do espelho.

Vejo que, hoje em dia, prestamos mais atenção às coisas subjetivas, impessoais, que as pessoas fazem do que nas próprias pessoas. Nos fixamos em cada ato que elas manifestam, em cada erro do irmão, em cada deslize do vizinho, em cada gafe do Presidente, enfim, em todas as imperfeições do que, propriamente, se fitar nos rostos, nos olhares, e toda flor de sentimentos que, por ai, podem ser expressos.

Por não prestarmos mais atenção às pessoas, fechamos nossos olhos. Ao menos, os desviamos  pra coisas menos luminosas. Nos trancamos em nós mesmos. As mesmas pessoas, não vendo reação por seus sorrisos, numa falta total de fé em si mesmas, ao não verem ecoados seus olhares, também baixam suas cabeças. Poucos olhares espontâneos prese nciamos atualmente, e os que flagramos, vez por outra, não demonstram mais compreensão, somente a mesquinharia dos que  se sentem pobres de  convívio, sentimentos, Amor e Realização.

Quando dizemos fazer algo em honra de Deus, de uma causa, de um ideal, nunca o realizamos para nós mesmos. Não adianta: digamos ser a Deus ou para que outros se apercebam, fazemos tudo ou para fazermos os outros felizes ou a nós mesmos, para nossa própria auto-satisfação. Não há o colocar-se no lugar do outro, no Tempo do outro; há o ser Herói, fazendo algo de grandioso e frutífero, ajudando o outro a salvar-se, e assim, adquirindo a esperança no próprio resgate, no próprio ressarcimento de seus esforços, para recuperar a identidade de si como estando em Todos. Afinal, pelo que dizem (e assim creio), Deus está  em Todos, todos d’Ele viemos e d’Ele fazemos parte…

Um dia, li em um livro, deveras famoso em nossos tempos, que:

O primeiro Caminho para chegar a Deus é a Oração; o segundo, a Alegria.

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Ora, toda oração é união com o Outro, é devoção ao Outro, é pedir pelo Outro, é compartilhar com o Outro. No rosto do Outro, feliz ou sofrido, encontramos o Sorriso de Deus. Olhar-se com olhar limpo, olhar o Outro com o Olhar da água, cristalino, também é uma Oração, é acercar-se de Deus no Outro. Olhemo-nos mais nos olhos!! Oremos!! O que mais nos revolta, por vezes, nas relações, é saber que nosso pior inimigo também é vindo do mesmo lugar, do Coração de Deus. Não é que nosso inimigo mereça nossa piedade ou intervenção, como algo imprescindível; nós é que, para nos considerarmos filhos de Deus, precisamos intervir por nossos iguais, olhar nos olhos do carrasco, lá no fundo, e o amar profundamente. Amar não é salvar somente o Outro; é salvar a nós mesmos, é como um náufrago achar uma tábua no meio do Oceano, é redimir toda a Humanidade num abraço interior. Se não somos todos irmãos, então somos todos órfãos, pois há um só Pai…

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O Amor é uma Ponte em mão-dupla entre os Corações.
O Amor é uma Ponte em mão-dupla entre os Corações.

A Alegria mais pura é aquela dada inadvertidamente, sem que possamos prever. Por isso, Jesus nos aconselhou que, quando alguém nos pedisse algo, que o déssemos sem pestanejar. Quando pensamos se vamos dar ou não, sempre avaliamos primeiro se nos vai faltar, se outros não quererão também, o que isso vai parecer, se há alguém olhando. Enfim, nosso egoísmo e nossa Razão irracional nos enchem de preocupações torturantes e nos tiram a alegria e a  surpresa que nos causam o sorriso gratuito de quem recebe algo de boa vontade. E essa Alegria só nos chega quando age o Coração. Esse é o dar sem querer receber; quando avaliamos algo, sempre fazemos alguma conta de Custo x Benefício. E Amor não se negocia, não se aposta, não se prevê, não se calcula.

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Como dizia Einstein, Deus não joga dados. Simplesmente, o Amor acontece. Esse é o Grande Milagre: o Amor acontecer à nossa revelia, a despeito de nossa mania de pretender controlar tudo, quando não conseguimos, sequer, evitar um mero resfriado!!

As Egrégoras e seu poder sobre a sociedade


Por Ebrael Shaddai.
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Começo do século XX. Década de 1920. A Alemanha está destroçada e falida. Os altos tributos de guerra, impostos pelos vencedores da 1ª Guerra Mundial, fazem o povo alemão entrar em uma histeria coletiva. As pessoas estão desesperadas. Milhões de vidas se perderam, e por nada. O orgulho nacional, impregnado na alma popular desde os tempos do glorioso Sacro Império Romano-Germânico, se espatifou sob os coturnos dos Aliados. A neurose e o desespero, causados pela fome e a humilhação frente ao mundo, são a tônica dos sentimentos populares. Bastou que alguém reverberasse as palavras que todos queriam ouvir de um líder, e já ouviam em seus corações, para que a Egrégora Nazista viesse ao poder.

EGRÉGORA — a palavra provém do grego egrégoroi e designa a força gerada pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade.

Duas pessoas estão assistindo a uma partida de futebol pela televisão. Torcem pelo mesmo time em campo. Elas juntam seus pensamentos, e mesmo que seu time esteja perdendo, sua união de pensamentos as fazem, cada uma, sentirem-se mais fortes e seguras. Sentem que, assim, conseguem ajudar melhor seu time. Esse é um exemplo típico de egrégora. Se, no entanto, aparecer alguém, que torce por outro time rival, que não em campo, e venha para desacreditar o time daqueles dois, ele é rapidamente repelido por aqueles, pois destoa de seus pensamentos. Pode ser a mãe de um deles, mas ela será repelida como se fosse uma inimiga.
É o poder da egrégora, alimentada pelas emoções das pessoas que a criaram, de fundo instintivo e corporativista, que faz com que aqueles pensamentos se sobreponham a qualquer resquício de bom senso. Quem consegue fazer as emoções das massas se manifestarem, e fluírem em certo padrão e direção  desejados, terá um poder inimaginável. Tal qual o poder que obteve Hitler sobre o povo alemão.
Quanto mais instintivas (fome, sede, desejo de vingança, derramamento de sangue, fervor religioso, etc.) forem as emoções despertadas, quanto maior o tempo de exposição da coletividade a essas emoções, mais pessoas se juntam (são incorporadas) a ela (a egrégora) e mais força ela terá. É uma reação em cadeia, tal qual uma bomba atômica mental, varrendo para bem longe qualquer traço de intuição e Razão das pessoas envolvidas.
Nesse caso, sem saber disso (talvez o soubessem, mas não creio), os americanos resolveram que somente algo tão radical, como a extinção de milhares de vidas humanas, instantaneamente, poderia sobrepujar e contra-impactar o poder daquela egrégora. Somente uma imagem tão aterradora, de cozimento de vidas humanas de sua composição, poderia parar a fome de sangue da Egrégora. Então, a Egrégora perdendo força, começou a desintegrar quando cada componente, sem mais pensar no orgulho coletivo, começou a dar mais importância à sua própria sobrevivência. E o instito de sobreviência é muito mais forte do que o desejo de vingança, pois está na raiz da própria vida do ser humano.
Nada pararia a Egrégora Nazista, que já estava fora de controle, e tinha se tornado um Ser (entidade viva, ainda que artificialmente criada, também chamada de mente-grupo ou formas-pensamento) à parte, independente, e que tinha força astral suficiente para controlar todos os movimentos de seus componentes. Dizia-se, inclusive, que a voz que ditara o livro Mein Kampf, escrito por Hitler na prisão enquanto ouvia a ópera Parsifal (de Wagner), era a voz do inconsciente coletivo dos sofredores amargurados do povo alemão, que já haveria constituído uma Egrégora, e manipulada por seres malignos das Trevas Interiores, conhecidos no Ocultismo e Thelema por Magos Negros. E os líderes maçons dos Aliados sabiam bem disso…
Outro caso em que considero que houve tão-somente a manifestação de uma Egrégora poderosa foi a aparição de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal. No dia 13 de Maio de 1917, três crianças (Lúcia de Jesus dos Santos, de10 anos, Francisco Marto, de 9 anos, e Jacinta Marto, de7 anos) afirmaram ter visto “…uma senhora mais branca que o Sol” sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Aljustrel, pertencente ao concelho de Vila Nova de Ourém, Portugal. Lúcia via, ouvia e falava com a aparição, Jacinta via e ouvia e Francisco apenas via, mas não a ouvia. As aparições repetiram-se nos cinco meses seguintes e seriam portadoras de uma mensagem ao mundo. A 13 de Outubro de 1917 a aparição disse-lhes ser a Nossa Senhora do Rosário.
Certa vez, quando as crianças anunciaram que Nossa Senhora apareceria em tal data e horário, jornalistas do mundo inteiro se acotovelavam em um descampado para acompanhar o que seria um evento extraordinário. E deu-se a visão de uma figura gloriosa, constando das características descritas pelas crianças acerca da “bonita senhora”. Todos ficaram extasiados com a visão, e cheios de emoção e sem saber, multiplicaram os efeitos visuais provocados pela Egrégora (diga-se, pela força das crenças instintivas e religiosas dos que já a alimentavam). Disseram que viram o Sol dando voltas no céu e como que dançando, assim como mudando de cores. Claro que isso não aconteceu realmente, nem o Sol ficou a dançar como um marionetes às vistas de todos, como num tal espetáculo. Foram apenas efeitos visuais e hipnóticos de uma multidão em transe coletivo. Mas foi de tal intensidade (e se fossem aproximados, palpáveis) que fotógrafos daquela época, presente ao evento, registraram em imagens os fenômenos. E por isso a aparição lhes pedia mais e mais rezas de terços todos os dias: para que fosse continuamente realimentada, num afã de aumentar o orgulho de um dogma falso.
Esse último fato está ilustrado nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=K36yrKz7xfc .
As Egrégoras não são essencialmente maléficas. Mas sua força é poderosa e inimaginável, com um poder de maniestação e multiplicação de efeitos surpreendente e fantástico. O que há de ruim, em todos os casos, em se estar imerso em uma Egrégora, em uma comoção coletiva, é que muitas pessoas não suportam o impacto do espelho mágico da ilusão cair por terra, despedaçando-se em milhares de estilhaços. Essas ilusões em pedaços, como cacos de vidro, ferem e gangrenam a alma dos empedernidos e dos desiludidos. Quando a Egrégora vem abaixo, e todos se vêem sozinhos, então se perguntam como puderam fazer isso ou crer naquilo. Por isso, o meu temor de que segredos escondidos acerca da vida de Cristo, que possam vir a ser revelados, provoquem, numa reação em cadeia, eventos nefastos em coletividades com muito fervor religioso e, individualmente, na saúde mental de pessoas sensíveis.
Não nego que existam também as Egrégoras benéficas, que são a união de pessoas em pensamentos positivos e de Amor fraternal, não motivadas e alimentadas por crenças pessoais, mas pelo desejo de ajudar desinteressada e incondicionalmente as pessoas necessitadas de auxílio e amparo, de ver o Mundo em Paz e Harmonia. Não devo desejar ao Mundo a minha Paz, mas somente a Paz, pura e simples!!
Paz Profunda a todos de boa vontade!!
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Fontes: