Morar em morros não significa (ou, pelo menos, não significava até tempos atrás) viver sempre cercado de temores de fuzis ou traficantes cruéis. Eu tive essa experiência na pele, literalmente, ao sentir o calor humano e a solidariedade das pessoas nessas comunidades. Na pele sim, pele bronzeada pelo sol escaldante a escalar as escadarias que lembram muito as do Bonfim.

No morro encontramos gente de todos os tipos, de todas as nuances: gente de classe média ou carente, universitários ou que assinam com o polegar no carimbo, católicos, espíritas e crentes. Esbarramos em pessoas subindo com sacolas de supermercado, televisões de plasma ou sacos de cimento nas costas, trabalhando para os que constroem suas casas e ganhando uns trocados. Na minha época de trevas, em que não havia “acordado para a vida”, como dizia uma pomba-gira que muito me ajudou, eu carreguei cimento morro acima, sacos de areia e brita graúda. Trevas, mas também tempos em que aprendi a olhar mais fundo nos olhos das pessoas e participar de seus sofrimentos, que então também eram meus.

Estamos nos idos de 1997, num morro da periferia de Florianópolis. Dentre aquelas figuras pitorescas, encontrei, como já previra antes de ir morar lá, uma senhora tão polêmica quanto popular. Era dona Ludmila. Ela era o tipo de pessoa que você ou a ama ou a odeia. Em última análise, ou a admira ou dela sente pena, ou pelo fervor de crente “zelosa” ou por seu caráter irascível.

Ela, cedo pela manhã, já era vista descendo pelas escadas rezando alto e solitária, aos olhos já acostumados dos moradores. Era o “despertador” coletivo”: se o galo, em dia de chuva, ficasse “gripado”, lá estaria ela, com seu vozeirão imprudente, já que sofria de uma asma quase irritante. Descendente de poloneses, forte e temível, ia pelo caminho, em acessos esporádicos de fúria “santa”, chutando as imagens de santos nas grutas, derrubando e quebrando oferendas às entidades dos “macumbeiros”. Mesmo sendo avessa à televisão, adotara o “mármore do inferno” como bordão, e achava que era um dizer comum dos “crentes”.

Mesmo despejando sua ira contra tudo que considerasse idolatria, não acreditava que macumba “pegasse” nela. “A macumba é a própria mentira do diabo, querendo assustar os crentes do Senhor!! Como o diabo não pode contra a gente da Igreja, ele inventa essas baboseiras”. Quando perguntada porque perdia tempo em chutar a mentira, ela respondia que a macumba era mentira, mas que seu sapato era de verdade. Sempre em vestidos longos, no estilo mais antigo das anáguas pretas, ela não suava nunca. Era incrível ver como ela vestia aquele blazer azul-claro no verão, sem nem precisar de um lenço sequer para lhe enxugar o rosto.

Certo dia, jogaram um sapo morto com a boca costurada, dentro de seu quintal. O mundo parecia que ia desabar. Configurou-se o próprio mini-apocalipse daquele morro. Ouviu-se um rugido pavoroso naquela manhã de sábado:

– Quem foi o istepô, o lazarento que colocou esse feitiço na minha terrinha?? O inferno te espera, lazarento!! Querem me derrubar e trazer doença pra minhas crias!!

Nessas horas, acho que ela esquecia completamente que era crente, de tantos impropérios que ela arremetia aos quatro ventos. Eu dizia comigo que ela agora iria acusar… quem mesmo??

– Agora que sei!! Só pode ter sido aquela sirigaita da Babilônia, aquela “zinha” da Marlene!! Tá querendo roubar meu filho da mãe dele!! Quer destruir a família dos outros, a perdida!! Mas aquela rameira há de acordar amanhã com o bucho inchado, e o amante dela com o “bigo” bichado!! Ah, se vai!! E ainda mata um pobre bichinho pra matar para o “demo”…

Marlene era a namoradinha de 17 anos de Isaías, o caçula, que ainda morava com dona Ludmila. Depois de passar aquele dia inteiro investigando, entrando e invadindo a casa de todo mundo para maldizer a Marlene e a família da “perdida”, sua asma começou a arrefecer, depois que lembrara que não portava a “bombinha”. Voltou para casa, subindo o morro com dificuldades, não admitindo a ajuda de profanos. Quando chegou, finalmente, à sua casa, escutou ruídos no quintal. Foi ver. Encontrou dois meninos abrindo a boca do sapo, que ela deixou a secar ao sol, encima do tanque de roupas. Ela quase teve uma síncope.

– Menino, não toca nesse bicho!! Esse bicho já é do “demo”!!

O menino respondeu:

– Dona Mila, olha o que escrito no papel enrolado no saquinho!! O saquinho, na língua do sapo!!

Era o nome de Marlene!! Surpreendentemente, dona Ludmila senta-se na soleira da porta da cozinha e respira fundo. Nessa hora, não lembrava-se mais da crise de asma. Depois de alguns minutos sem falar palavra, responde aos meninos enfim:

– Bem, pelo menos o sapinho morreu por uma boa causa!!

Dona Ludmila não tinha jeito. Inimigo seu era inimigo de Deus, nem que o diabo lhe servisse de ajudante. Afinal, se não pode vencer o Inimigo, alie-se a ele!!

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