Nasci a 25 de outubro de 1980, às 23:15 horas, em Florianópolis, estado de Santa Catarina. A configuração celeste de meu nascimento era como um fantoche, com cordas muito tesas, esticadas de forma tensa. A maioria dos astros estava do outro lado céu, oposto ao céu que me cobria, alguns em aspectos negativos aos astros acima de minha cabeça, que influenciaram decisivamente a minha personalidade ativa. O arranjo das forças kármicas em ação-reação, no momento de meu nascimento, prediz muitas dificuldades e conflitos ao correr de minha vida.

Cresci taciturno, isolado das rodas populares, o que me deixou como única alternativa mergulhar nos estudos. Quase sempre calmo, quando exposto a alguma tensão muito pungente, explodia em acessos de ira. Geralmente, não guardava (até hoje é assim) rancor por muito tempo. A minha tônica era o comportamento discreto e introspectivo, porém altivo; estudioso e arrogante. Nunca tive popularidade na escola, já que minha mãe não tinha recursos para que eu andasse na moda, nem com a melhor mochila. Não tinha acesso às galeras, a não ser as dos C.D.F.’s. Quando um popular chegava a mim, era por um de três motivos possíveis: ou queriam me bater, quase sempre em bando, ou queriam me hostilizar por ser diferente de todos, acusando-me de pretender ser o perfeitinho, ou queriam cola nas provas. Digo o mesmo das meninas: ou queriam zombar de mim ou queriam cola ou queriam empurrar os trabalhos de classe sobre minhas costas. Até os 14 anos, sómente as meninas rejeitadas (aquelas que todos deixavam de lado na escolha do par da Quadrilha de São João, por exemplo), ou com algum complexo esquisito, se interessavam por mim.

Por não ser popular, por não ser herói, por não me achar atraente para as meninas, vivia fugindo das multidões. Não fazia parte de nenhuma turma, e se o fizesse, seria apenas mais um boi de piranha, pois eu simplesmente ficava paralisado e amarelava na hora de entrar numa briga. Era o frouxo, o amarelão, o vacilão, o fracote. Sempre na covardia, tentando manter um espírito conservador. Mas, o que eu tinha a perder, se arriscasse defender minha cara, se ousasse chegar numa garota, mesmo tremendo? Perderia a glória de filho perfeito, que minha mãe me concedia? Conservar o que? Um ou dois dentes? Acaso, perder numa briga seria mais vergonhoso do que ser insultado e fazer aquela cara de não tô nem aí, sem reagir de forma alguma? Como teria uma namorada, se não seria capaz de defendê-la de um abuso qualquer de outro garoto?

Me escondia, me retraía, me isolava. Meu mundo era recheado de reinos e países em que, finalmente, eu poderia governar com mãos de ferro. Era escorpiano, de Marte, o deus da Guerra e, ao mesmo tempo, um frouxo. Um paradoxo, um conflito difícil de dissolver na cabeça de um adolescente cheio de ímpeto, mas coagido por freios invisíveis e kármicos, restrições instintivas por demais opressivas.

Era conhecido na vizinhança como o garoto que, aos 14 anos, ainda jogava futebol sozinho, tendo como bola um frasco vazio de vinagre, e como adversários, os postes do varal de roupas. Eu ainda era o ninja Jiraya, com sua espada emprestada do cabo da vassoura. Corria ao redor da casa, aproveitando o cronômetro do relógio Casio, digital, que ganhei de meu pai, para saber em quantos segundos “completava a prova”. Esbravejava com as formigas quando elas não queriam mais comer as moscas que lhes lançava, coletadas durante tardes inteiras com auxílio de um pedaço de elástico, surrupiado dos aviamentos de minha avó. Tudo num isolamento voluntário, para mim o meio mais seguro de não passar as vergonhas de sempre, nem me cobrar por passar tais vergonhas passivamente. Eu e minhas colônias de formigas, com territórios mapeados e organizados em províncias. Eu e meus livros e mapas, minha coleção de Almanaques Abril e revistas Superinteressante. Todos eles reunidos ao Globo escolar que meu pai me dera, certa vez, como presente de Natal.

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