Igreja do Diabo (Machado de Assis)


“(…). Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

– Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé nem Lutero. Há muitos modos de afirmar, mas apenas um de negar tudo.
(…)

– Sim, sou o Diabo. repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram, e logo que vieram o Diabo começou a definir a doutrina. A doutrina era que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínicas e deslavadas.

(…)”

(A Igreja do Diabo, em Histórias sem Data – Machado de Assis)

Brilho e Calor


Do céu veio um brilho, já de morte,
E um calor que não era de útero materno.
Era como um cogumelo, de sorte
Que se tornaria em segundos em dantesco inferno.

A sede de poder trouxe a fornalha do demônio;
A guerra decretara o hediondo cozimento
Dos que, com seus restos, deram o incremento
À tão valiosa carga de urâmio e plutônio.

A vida no fim, de setenta mil em trinta segundos.
O fim no começo desses poços sem fundos
Do ódio, com flores atômicas para lembrar.

Aqueles cogumelos provinham de mundos
Bizarros, de afetos invertidos. Horrível de pensar
Que sejam os corações tão rasos para túmulos tão profundos!!

(06-08-2005, in memoriam pelos 60 anos desde a explosão de bomba atômica sobre Hiroshima, Japão).

Musa Consolatrix ( Machado de Assis)


Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte da mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

(Crisálidas, 1864.)

Um ano mais novo


17-10-2003 12:30 p.m.

Ontem um fato me chamou a atenção. Não sei bem o que senti na hora. Talvez perplexidade, diante das misérias dessa nossa humanidade. Ao retornar de um passeio noturno, passei num bar perto de minha casa pra comprar cigarro. e me dei conta de uma discussão dessas totalmente inúteis pra mim, mas cujo motivo deveria estar provocando uma qualqier agonia no personagem principal. Uns 4 ou 5 outros coadjuvantes participavam da cena: im senhor mulato que frequenta notmalmente o tal boteco, o irmão mais novo do Evandro, o Alexandre (irmão do Vilmar da Padaria) e outros dois convivas. Tentavam convencer o protagonista, que já estava com os olhos pesados devido à bebedeira, que se ele nasceu a 22 de outubro de 1971, ele iria completar então 32 anos de idade. Ele insistia que completaria 33 anos. Insistia com veemência, quase num tom ameaçador que todo bêbado, que se acha seguro de si, costuma ostentar. Todos, inclusive eu (que não o conhecia pessoalmente até então), tentamos em vão, por mei dos mais irrefutáveis argumentos (adição e subtração), tirá-lo daquele eero infantil.

Ele, por sinal, pensava há muito tempo que era mais velho do que realmente era. Desesperou-se. Um ar comportado de decepção o tomava. Discussão banal, que perdurou por mais ou menos uma hora.

Como uma ilusão (ou a quebra dela…) faz doer o coração de um ser humano!! Me causou uma impressão estranha aquelas cenas de revolta, por ele saber que que era simplesmente mais jovem!! Uns diriam: que ótimo para ele!! Visão relativa. Ele certamente, não pernsava exatamente dessa forma. O álcool exaltou aquela mágoa contra si ao constatar sua distração, sua ilusão, que apesar de não ter importância para nós outros, parecia praticamente o desintegrar.

A ilusão é sempre uma ilusão. Os seus efeitos são relativos aos paradigmas, aos pontos-de-vista.

Breviário do Mentiroso – Alguns Esclarecimentos


Diz a tradição (qual tradição mesmo??) que a mentira nasceu quando LiLith que nem ela nem o Adão morreriam ao comer o fruto proibido. Ela não estava mentindo, só não dizia toda a verdade…Omitiu a parte da verdade que lhe convinha, não leu nas entrelinhas as cláusulas misteriosas. Essa é a “verdadeira” mentira: a verdade oportunista!!
Outros contam que a Mentira perdeu as eleições para Rainha do Universo em favor da Verdade. E para não perder sua participação na política cósmica, depois que sua “verdadeira” inimiga colocou a boca no trombone (no bom sentido, é claro!!) sobre sua real natureza, e não ser condenada e extirpada da vida, tentou se aliar à Verdade. Não iria mais lutar contra a Verdade de peito aberto e escancarado e, em troca, a Verdade alegaria ser a Mentira uma verdade (no sentido de existência real e não dependente da Verdade) desde pequenininha. Pura barganha!! Tudo estava bem e as idéias acerca do Caos e da dualidade eterna seriam por algum tempo esquecidas. E o homem “pecou” porque, confundindo uma com a outra, achou que seguindo a uma não estaria se afastando da outra (conhecemos isso por “ficar encima do muro”).
Não é necessário maior esforço para perceber que há essa tradicional confusão em fatos, ora remotos ora recentes, da nossa história. Mentiras engenhosamente camufladas de Verdade, e verdades que não eram imputadas como mentiras (mentiras sacanas mesmo, algumas delas). Maria Antonieta era sim uma boa mãe e não uma tresloucada, depravada e incestuosa, como muitos a acusavam apenas a ver mais uma cabeça dentro do cesto de vime. Faraó nunca foi um deus. Satanás nunca teve chifre ou rabo. Jesus não bebia vinho sem álcool, nunca foi celibatário (1-pregar em sinagogas exigia dos preletores que fossem casados e, de preferência, com filhos; 2- um homem sadio não beber vinho, e sim ki-suco, equivalia a ser viado!!).
O que nós conhecemos como mentira, o que se propaga por aí em termos de doutrina, cultura, história, é algo verdadeiramente amador. É como conceber um filho e não saber trabalhar com nada para sustentá-lo. Mentira é dissimulação. Dizem que a mentira tem pernas curtas, mas o mestre em embustes sabe guardar pernas-de-pau para essas ocasiões emergenciais. Segundo um magnífico pensamento, testado e comprovado por mim mesmo na prática, o qual li em uma edição da Playboy, que dizia assim: “(…) uma mentira de qualidade precisa ter pelo menos 90% de verdade, motivo ou necessidade”. Os 10% restantes consistem de pura técnica teatral. Um grande mentiroso (a quem eu chamo mentirólogo) é tão profissional e eficiente em seus esforços que acaba acreditando na própria mentira e, até mesmo, sonhando à noite com ela. Sem dúvidas, trata-se de uma evolução em mentirologia ou mentirotecnia que garante ao mestre a sobrevivência aos detectores de mentiras obsoletos das polícias do mundo, e até da CIA!!