Sobre dizer adeus


Dizer adeus, de súbito, é algo desagradável, traumático, por si só. E, acaso, nos prepararmos para isso, diante de quem amamos, do trabalho que abraçamos, é menos triste?

Felicidade como realidade duradoura


Felicidade não é algo constante, durável, perene. A ilusão de uma felicidade sem fim, ininterrupta, de um mar de rosas, é cruel, por vezes. A doçura de tal ilusão é atroz e cortante, traumática mesmo. Assim, podemos dizer que, quando nos lembramos dos “momentos felizes”, queremos dizer que nos apegamos aos “bons” traumas, como tatuagens em carne viva. A primeira e grande amizade, os festejos de Natal ao redor de uma mesa ou de um presépio, o primeiro beijo no qual nos reconciliamos ao grupo dos adultos que invejávamos, a bronca do professor que te fez aprender definitivamente a deixar de ser malandro na escola. Enfim, os traumas nos fazem humanos. Quando sentimos dor, então sabemos que estamos vivos (ainda).

Kitsch: a indulgência plenária


“Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

(Milan Kundera in “A Insustentável Leveza do Ser”)


A palavra kitsch, em alemão, tem significados meio controversos. Tem a ver com estética e arte, denotando uma postura pouco tradicional, onde tudo é permitido para que não hajam tantas dferenças entre estilos. Imita o que é considerado, na forma erudita, como belo e aceitável, mas que, na verdade, é apenas um disfarce, uma máscara para que não fiquem visíveis a falta de originalidade, a indiferença e a falta de aderência às coisas.

Tentando entender o significado da expressão acima à luz do livro de Kundera, consoante seu tema principal (a volatilidade da Vida, de seus valores e percepções), ficou-me claro que ele quis dizer que o kitsch é nossa última e suprema indulgência em relação àquilo com que nos confrontamos e estamos em conflito. É como se tivéssemos de perdoar ou mesmo diminuir o peso sobre algo para que possamos então nos desapegar.

Tudo aquilo pelo que brigamos, até então, passa a não ter para nós tanta importância. Passamos a não discutir mais sobre certas coisas, aquelas mesmas as quais acreditávamos serem essenciais. Os pilares imprescindíveis de nossa posição perdem seu peso magicamente, de uma hora para outra, e nos perguntamos por qual motivo. Isso é sinal de uma situação gasta, de memórias não revistas com tanta frequência, de questões cujas respostas foram displicentemente proteladas.

Semelhante ao esquecimento de um ente querido que se vai, pelo qual só fica a saudade um pouco anestesiada, um kitsch compulsório, nosso esquecimento pelos outros passa pelo cansaço que nossa presença causa, pelos traumas e sofrimentos que podemos vir a inspirar. Quando a mente cansa, ela força o kitsch, a banalização dos pesares pelo famoso “eu não tô nem aí” ou por um “não me importo mais”. Se não for um blefe, devemos nos cuidar: pode ser o último perdão e supremo ato de indulgência anteriores ao afastamento da Vida e do Amor.

Fonte da citação: http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera