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Por meus dedos


Dedico minhas penas, palavras e dedos pequenos, à genialidade de Paulo Mendes Campos, um mineiro cujas crônicas me encantaram desde a mais tenra infância. Agora, infância nem mais tenra, nem mais iludida.

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De Infinitudine (Sobre o Infinito)


Nota do Autor: Embora boa parte do que será exposto aqui já tenha sido, por muito tempo e incontáveis vezes, ecoado na História do Misticismo e da Filosofia, vou procurar expor apenas pensamentos meus , fruto de anos de reflexão.

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Por Ebrael Shaddai.

Como poderíamos pensar naquilo que não tenha início e/ou fim? Como representar, simbolicamente, o Infinito, ou aquele a quem nos acostumamos a chamar “Deus”? Como foi criado o Universo? Se todo o Universo estivesse contido num ponto do tamanho de uma cabeça de um átomo, como dizem os teóricos do Big Bang, o que encontraríamos ao redor dele?

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O Zero e Deus


Desde a Antigüidade, ouvimos que o símbolo gráfico que exprime o infinito é dado pelo círculo, numericamente representado pelo algarismo 0 (zero). Mas, as religiões monoteístas nos dizem que Deus é Um. Logo, deduzo que elas se referem à Primeira Manifestação de Deus na Criação, mas não a Deus Eterno e Incriado.

A razão pela qual os antigos filósofos creditaram ao Zero o simbolismo da eternidade é muito simples: graficamente, o zero não tem extremidades. Ele não tem começo ou fim aparentes, e ele começa onde termina, seja lá qual for o ponto que se adote como referencial, diversamente do Um.

Cobra que come o próprio rabo

Se fôssemos representar o infinito num plano, o Zero seria ineficaz, pois ele separaria o que está dentro do que está de fora. Não pode haver limites àquilo que, teoricamente, é ilimitado. Lembremos, porém, que um símbolo não busca denotar dimensões, e sim conceitos, arquétipos, idéias abstratas. Logo, como símbolo, ele se enquadra perfeitamente ao conceito de Eternidade no Misticismo.

Mas, quais as outras razões de creditar ao Zero o título de número da Eternidade, e não ao Um?

Os conceitos de Unicidade, Imutabilidade, Indivisibilidade e Imanência, características de Deus, são equivocadamente atribuídos ao Um. Deus não somente é indivisível em seu Todo, mas também apresenta a ausência de opostos em si mesmo.

Pela matemática, podemos visualizar melhor isso tudo. O Um é indivisível, mas possui opostos (+1, -1). O Zero é absolutamente neutro.

O Um, elevado a qualquer potência, resulta nele mesmo; porém, se adicionado a outro número, transforma-se neste. Se colocado à direita do mesmo, dá-lhe uma existência nova (pois, assim, representa a base decimal, e de dez unidades é constituída a série numérica básica de nosso sistema ocidental, como que representando um ciclo de existência). O Zero, elevado a qualquer número, resulta, também, nele mesmo, e multiplicado por qualquer número, permanece igual em sua natureza neutra. E daí, com todas as outras operações.

A única ocasião em que o Zero sofre uma mudança (e isso, acho eu, foi o início de tudo) é quando o Zero é elevado a Zero, o que resulta em Um. Uma eternidade que é elevada (sofre o impulso ou desejo) de ser eterna, fora dela mesma, propicia um ciclo de geração de eternidades (como a descida e subida dos anjos, a espiral evolutiva, etc.), já que eternidade perene e imutável só pode haver uma. É o início da seqüência numérica, sem a participação do Um, tido como a unidade numérica fundamental e primeira. É a geração do Primeiro Ser visível (Um) a partir do Invisível (Zero). Segundo a Qabbalah, isso é Nequdah Rashunah (Primeiro Ponto), sendo esse o símbolo do número Um. Daí, tudo começou do Nada, e do Nada tudo foi feito.

Deus é o Zero no centro do plano cartesiano e do círculo. Parece que ouço Paulo Mendes Campos, sussurrando enquanto pigarreia:

Todos os pontos do Círculo são equidistantes de Deus.

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A Bohemia Fundamental e a Companhia dos Poetas


Pelo título, não quero que pensem que estou enchendo a cara, como faziam alguns Grandes Poetas e Escritores. Nem encho a cara, nem chego à sola dos pés de nossos Grandes Mestres Poetas. E a palavra Bohemia, hein?!? Está escrita propositalmente de forma errada, na grafia arcaica, pois não é ao sentido etílico-alcóolico que me refiro. Me refiro ao estado de alma do poeta, numa gestação de emoções em seu interior, como quem vai pôr os bofes pra fora, depois de ter tomado meio tonel da Mineirinha do Engenho Velho.

E é essa Bohemia que me invade e bagunça tudo aqui dentro do peito. Às vezes, é uma bagunça organizada: um vento assola e outro, logo em seguida, reorganiza tudo em versos e estrofes. Pode ser também uma Bohemia prosaica, trivial, em prosa sem versos, parágrafos sem teor definido, porém caindo como um volume de mercúrio sobre minha cabeça. É a Bohemia que não é cerveja, mas que, no calor da falta do que fazer, numa mesa de bar ou da varanda, é a salvação daquele que quer falar a verdade sem ter a quem se dirigir.

Cá estou, numa entrevista com os Poetas de outrora, numa autografia furtiva, escrevendo um pálido ensaio sobre mim mesmo, poetizando com as palavras agridoces de nossa Antiga Antologia.


Eu estou na fase da Dança da Chuva, rogando aos céus por uma resposta que não chega. Abro meu peito para que um analista cego me destrinche e me diga qual é o diagnóstico da alma. Rígido Silêncio. Aquelas vozes, que agora não passam de tons agudos irritantes, das Musas, pedindo por caneta e papel, não me falam coisa alguma. Ficam lá, a entoar melodias monótonas aos marinheiros e camponeses…

Enquanto isso, eu aqui… Eu aqui, com minhas quimeras e afagos na alma, junto de Augusto dos Anjos.

E eu? Fico aqui com o José do Drummond. E agora, José? Ele retruca: “E agora, Ebrael? O Amor é isso mesmo“. E o Poeta ainda debocha do meu rosto suado, depois do Amor:

– Hoje beija, amanhã não beija; depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Mário (o Quintana, pois o Lago se absteve de falar) me fala, à sua maneira, que eu nasci de parto mental prematuro. Me diz que estou na idade de estar vivo, e vivo demais. Eu, por um momento, duvidara disso.

Peço um cuba libre, bebida de gente solteira de alma, solta no mundo, presa na multidão. Acendo um miserável cigarro. Vinícius, num impulso, pega em seu violão e cantarola:

Você que ouve e não fala;
Você que olha e não vê,
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender…

Antes que continuasse o diálogo, lhe disse que eu tenho de aprender mais sobre a Paciência, essa mucama caseira que acorda todas manhãs sempre com o mesmo arranjo de cabelos.

Fernando Mendes Campos me disse, e o haveria de repetir pelo resto da noite, que a Rosa era a Rainha do Universo. Eu, no entanto, só soube perguntar-lhe onde ela morava. Certa vez, me lembro de ter feito uma prece para uma rosa vermelha do quintal de um vizinho, para que me trouxesse de volta uma mulher que amava. Mas quem me respondeu foi Papai Noel, por meio de um cartao virtual, enviado por engano por ela, desses que se enviam em massa pelos malditos e-mails impessoais.

E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça… Quando tudo está perdido… e quando o sol bater na janela do seu quarto…“, me soprava Renato Russo. E eu, Renato? São ainda quatro da manhã. Essa Bohemia que não se acaba. Essa vontade de vaguear por linhas sem fim, que dela falam…

Teu olhar não diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro…

Agora compreendo o que significava, intrinsecamente, a ânsia dos navegantes. E compreendi também a razão dos tonéis de rum. Entendi e calculei mentalmente as dimensões da nostalgia dos que empunhavam lunetas e astrolábios, buscando vislumbrar a Terra Prometida no horizonte aquoso. Pois:

Navegar é preciso, viver não é preciso.