Grito da Esperança


Assim, muda o mudo
E fala a tal mudança.
Permanece isso tudo
Em perfeita bonança.

Cede o cinto à pança
Daquele guloso parrudo,
Indiferente ao ossudo
Rosto faminto da criança.

Ao rapado ou ao barbudo,
Ao de tez fransida ou mansa,
A mudança não lhe é escudo

Para fugir ao grito mudo
Do faminto de esperança,
Pois a esperança redime tudo.

(Ebrael Shaddai, 2 de abril de 2016)

O fim de toda sanidade


I – PERPLEXIDADE

Este redemoinho é o funil,
Nesse pesadelo politico,
Desse território mítico
Do mórbido e trôpego Brasil.

Jamais se vira filme tão vil
Nem povo, assim, paralítico,
Diante do frenesi, do cio
Dos malucos, o mais crítico.

Molusco é nomeado Napoleão,
O advogado julga seu cliente,
O leão é leoa, a cobra é bichano.

Na inversão que o corpo sente
Da visão, tão clarividente,
Cede a sanidade ao mais insano.

II – MUTAÇÃO

É tão pungente essa dor
De ver cair tal edifício
Da vã memória nesse hospício!
Dá-me passagem, por favor!

Dá-me passagem ao resquício
Da sanidade, já incolor.
Da mutação do meu furor
Surge da mente um tal vício.

Também da mente, um artifício
Sai, desabalado, como amor
Louco ao roubo e ao comício.

Minha carne sofre do cilício
Cruel e humano, de humano vício,
De pedir: “Me engane, por favor”.

III – SUB TILE

Sob a telha chove bem mais
Que aos ventos e temporais,
Que à loucura da sua afronta
Ao horizonte, que nos apronta.

Tenhamo-nos à certa conta
De cordeiros limpos, pascais.
Saibamo-nos contra os animais
No campo em que o Mal desponta.

Presa fácil, sempre pronta!
Faunos, acéfalos, à ponta
Para as belas ninfas ideais.

O humano teatro faz de conta
Que o normal é normal demais.
E o bisonho? Bem, tanto faz.

Prefiro os Sonetos


Em resposta às palavras de incentivo de uma Amiga Verdadeira, em mensagem no Facebook, resolvi escrever esse poema, declamando os motivos de minha preferência pelos Sonetos, através de um poema que não é um soneto, por sinal.

 

Prefiro os Sonetos


Sempre preferi os sonetos
Por motivos cabalísticos:
Duas quadras para o físico
e dois tercetos para o espírito.

As quadras trazem a atração e as boas-vindas
Ao nosso olhar, e os tercetos…
Bem, os tercetos se dirigem ao Coração,
Alvo e fim último das estrofes sentimentais,
No desfecho de uma conquista meticulosa.

Os poemetos me são caros,
Pela simplicidade.
Mas, são os sonetos que me levam ao êxtase,
Pois que coadunam a carne e a alma,
Conjugam verbo e cavidades,
Unem os ângulos retos e os fazem retorcer-se
Em triângulos poéticos.

O soneto é o filho perfeito do casamento
Entre a rigidez métrica e o espírito da surpresa.
Quanto mais não me surpreendo,
Sonetos lendo,
Assim que me abro
À Pedra Angular do Quatro,
E me transcendo
Ao gran finale, por um comentário,
Uma lembrança muda,
Que ao concluir,
Ao Amor aluda.

Prefiro os sonetos, sim,
Imiscuo-me à Quadra e ao Terno;
Mas, dê-me pena e papel,
E lhe faço dos números todos
Uma Antologia completa.