Doce amargo


Hoje, como em muitas outras noites, contei meus dias. Estão diminuindo em sua duração, é claro. Já não têm a duração das peladas eternas em campos de várzea, das tardes passadas sob os arbustos da Praça 7 de Setembro, em Palhoça. Hoje, vivo uma noite singular de um dia encurtado pelas preocupações sufocantes, dentre raros prazeres ou devaneios descompromissados.

Dizem os ascetas cristãos que o sofrimento nos liberta a alma. Eu digo que a Liberdade traz o sofrimento primordial de ver desvanecer-se parte de sua personalidade, justamente a parte oferecida em sacrifício pela disciplina da Vontade, que nada mais é que um desejo  tornado consciente e maduro. A Vontade confirma-se apenas por atos. Nossos atos, a despeito de nossa ascendência (ou não) sobre eles, nos carregam com a insígnia de nosso Nome. Assim, Deus dizia dos que lhe conheciam pelo Seu Nome, ou seja, pelos que viram manifesta sua Vontade em Atos. Ou seria Atos que representariam sua Vontade?

Nem sempre nossos Atos representam nossa Vontade. Muitas vezes, eles representam uma contingência do que deve ser nossa Vontade dirigida a uma adequação circunstancial. É uma tal compulsão pela conformação das coisas, e de nós mesmos, a uma necessidade de harmonia que jamais conhecemos de fato, apenas intuindo-a. Somos seres essencialmente instáveis e, por isso, suscetíveis ao vislumbre de miragens ideais.

Sinto hoje o tom envelhecido das frutas da estação, ao cair do outono da Vida. Sinto aquela vontade de retornar ao abrigo do ventre materno. A lagarta é duas vezes ela mesma ao tornar-se borboleta, já imiscuída à Liberdade solitária do ser adulto, ao sofrimento em meio à separação do desejo protegido pelo casulo, sujeita às degenerações do Tempo que corre, livre às vistas, com as folhas amarelas a preencher os terrenos baldios. Há épocas em que não voamos mais em direção ao néctar, mas ao alimento.

Essa Liberdade já não é mais facultativa, mas, então, compulsória. A sandice não cai em nada como romper cadeias, mas em  habitá-las. O estímulo não é mais natural, e sim conduzido, como numa dança desesperada pela chuva de minutos no sertão. A tensão não emana do ar do vento norte, trazendo tempestades espetaculares, mas somente de tremores da bílis, conduzindo mal-estar aos quatro cantos do leito abdominal. Motivos esparsos, adormecidos, eivados de ideias persistentes e obsessivas, surpreende-nos a cada minuto pelas vielas por entre as casas, subidas e descidas, perscrutam as lajes e esbarram em gatos assustados.

Os olhos vigilantes de nossa Liberdade marcial decreta-nos soluções para um século de Paz, mas não tira o peso de cada tarde de Guerra Fria nas tardes de sábado. Eternidade é a velocidade dos sentidos por segundo ao quadrado. Eis a fórmula a qual Einstein não descrevera, a quadratura de nossos Círculos, a evolução de um Conceito e a explicação do motivo de aquilo que nos é doce, às vezes, nos parecer tão amargo, e/ou vice-versa.

Cresça por dentro, mas não esqueça a raiz!


Nos tempos natalinos e de Páscoa, fico assim, nostálgico e infantilmente saudosista. Será que isso é normal? Acho que sim. Normal e saudável, bom para afastar riscos de perturbações mentais. Imaginem se vivêssemos décadas sob a égide adulta, com aquela cara sisuda e grave, típica do mordomo da Família Addams! Pela palidez de sua pele, nota-se como fica um adulto sem vida própria, sem esperança.

Quando eu falei em perturbações mentais, me refiro mesmo a quando falham nossas mentes em relação àquela Lei da Física de Einstein, que diz quea noção de passagem do Tempo depende do referencial a que o observador se reporta“. E você, parou no Tempo? Seu trem continua correndo? Você está dentro ou fora do trem? E o que você consegue ver?

Tenho uma amiga que, vez por outra, me falava que se cobra regularmente por achar-se imatura. Aí me pergunto: acreditar no Amor, crer na bondade e nos valores nobres e ter fé no futuro é sinal de imaturidade? Preservar-se do mal do lado de fora, onde faz frio e as pessoas fazem qualquer coisa por um pouco de calor humano, não lhes importando o quanto se depreciem, é indicativo de infantilidade ou ingenuidade excessiva? É anormal ter caráter, agora?

Sim, a evolução é algo inexorável na Natureza. A árvore cresce, mas conserva latente a potência da semente da qual nasceu, as lembranças e lições de quando era apenas uma plantinha de caule fino, que mais parecia um “cambito”. Conserva, não obstante se erga célere e ávida das estrelas da noite, o frescor do orvalho da terra, do tempo em que ainda respirava o cheiro de barro e se sujava na lama das chuvas de verão. Ela e suas companheiras, árvores-meninas.

Sorriso de Criança
Cresça por dentro, mas não esqueça de suas raizes!

Conserve sempre essa memória santificadora ao cuidar da Criança que tens em si, para que, ao lançar sua semente à terra, no devido tempo, saibas transmitir a mesma alegria das tardes de verão chuvoso, em que brincavas com a água escorrendo por suas folhas,  eras refrigerada pelo vento que vem do Sul e te alegravas ao te surpreenderes com um raro arco-íris!

Se um dia seremos ceifados e relegaremos nossos caules como alimento para a Terra-Mãe, não nos esqueçamos que renasceremos sempre, seremos Crianças sempre, e é estupidez abafar a Voz Infantil de Deus-Filho, que nos reclama pureza e um sorriso maroto. Termino, deixando como epílogo, duas citações, uma em texto, outra em vídeo. O texto é um reflexão de um homem bem “moderninho”, o filósofo chinês Confúcio (Kung Fu Tsé, ou Mestre Kung) , que viveu há aproximadamente 2.500 anos atrás. O vídeo é uma versão animada de uma canção do Toquinho, chamada Aquarela, a qual todo mundo associa ainda às propagandas dos lápis da Faber Castel. Prestem muita atenção à mensagem oculta e profunda da letra, a qual no começo fala do nascimento, e no fim, da morte. A verdade, contada às crianças, de forma lúdica.

Feliz Páscoa e ressurreição em todos os Corações dos Filhos de Deus!


***

Os homens perdem a saúde, juntando dinheiro

Para depois perder dinheiro tentando recuperá-la.

Esquecem o presente por pensarem ansiosamente no futuro

E acabam por perder ambos.

Vivem como se nunca fossem morrer

E morrem como se não tivessem vivido.

(Confúcio)

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Prazer difícil


Há dias em que o que você precisa é apenas relaxar um pouco. Melhor é relaxar em boa companhia. Há semanas que eu e minha esposa combinávamos ter um momento a dois, longe de interferências externas, sem adolescentes em casa, no silêncio, ouvindo tão-somente o ruído de nossa própria voz.

Se eu fosse supersticioso, diria que facilidades temos apenas para fazer o que é errado: fumar, beber, nos atrasarmos para o trabalho por mais dez minutos de sono, etc. Diria, também, que há forças sobrenaturais especializadas em encher nosso saco exatamente nos momentos principais de nossa vida, nas vésperas de nossos prazeres mais frugais. Tomei banho, fiquei cheiroso como sempre. Fiz uma refeição leve, e fiquei pronto para um tempo só nosso, meu e de Rose. Nos entreolhamos, coloquei a mão direita no bolso, num compasso de ansiedade e espera, mais que demorada.

De repente, toca o telefone: a senhora minha mãe acaba de cumprir sua missão de me ligar pela segunda vez no mesmo dia para saber se eu havia me alimentado. Meu rosto sua, mas consigo falar civilizadamente com minha mãe sofredora. Afinal, honrar pai e mãe não significa apenas tirar boas notas na escola. Respiro, e recomeço a tentar chegar perto de Rose para… limpar o chão, depois de derramar o café sobre o colo dela. O café estava quente, e sinto ela se esforçar interiormente para não me xingar. Ela prefere disfarçar e ir trocar sua camisola, feliz como toda esposa espartana.

Espero-a impaciente, e improviso uma música suave ao fundo do quarto. Ela chega e me pergunta se eu estou com sono, e se eu aguentaria ficar mais tanto tempo acordado. Eu procuro tranquilizá-la, dizendo que há muito tempo que havíamos combinado essa noite. Quando me lanço pra abraçá-la, um grilo pousa sobre minha cabeça e me arranca a última gota de paciência e sanidade que me restavam. A pantufa é mole, mas suficiente para fazê-lo sentir toda a poeira que ainda sobrara no soalho. Poderia tê-lo comido, mas, como já havia dito, tinha me alimentado bastante.

Depois de ter tirado o telefone da tomada, trancado as portas, deixado apenas a lâmpada sobre nós acesa, fechado as cortinas, limpado o chão, verificado se havia alguém mais para chegar da vizinhança, tomamos posição e recomeçamos.

Quando, coladinhos como estávamos, nos concentramos suficientemente, eis que falta energia elétrica!! Ao que gritei:

– Que merda! Será que é tão difícil assim lermos um livro depois do trabalho??

***

 

MORAL DA HISTÓRIA:

“Quando você pensa que está fazendo algo de forma certa, sempre te dirão que temos mais o que fazer; quando estamos fazendo coisas erradas, não faltarão pessoas a te dizer que estás a fazer a coisa certa”.

O que lhe (me) faz feliz??


Algumas vezes, quando eu era mais jovem do que ainda sou hoje, me perguntava o que me fazia feliz…ou o que me faria feliz no futuro. Eu via com medo um futuro de empregos estáveis demais, uma família que me seguisse em todas as festas, uma casa para sustentar e outros prazeres “incômodos” da vida de adulto. Eu queria não estar em lugar algum por muito tempo, estar por muito tempo com a mesma pessoa, trabalhar muito tempo em um mesmo lugar, sentado todos os dias na mesma cadeira. Eu queria era liberdade…

Até aí tudo bem!! A juvntude traz consigo o fogo próprio das paixões instáveis, os desejos extravagantes, o horror e aversão a tudo que é, pelo menos aparentemente, parado.

Mas amadureci. A princípio, isso me entristeceu, pois vi aquela paixão toda, que me caracterizou por boa parte da minha vida, se amainar. Hoje vejo que isso não era propriamente ruim; apenas a paixão foi direcionada para um foco diferente, como se eu mudasse os óculos sem “trocar” de olhos. Passei a desejar uma vida segura, pois já não podia, como era quando semi-adulto, chegar em casa e saber que certamente haveria comida na mesa. Tinha agora que trabalhar e ir atrás de um emprego estável, e não mais perambular e trocar de empresa a cada 6 meses. Me casei. Quem casa quer casa. Com um emprego mais estável, contraí os empréstimos para construir uma casa. Terminamos de pagar a casa, quisemos melhorar os móveis. A sensação que temos é que as necessidades não cessam de nascer.

Mas é a vida, como ela é. Morrem seres, nascem mil outros, sem cessar na vida. Pois a vida não é sossego, é AÇÃO.  Mas, com o tempo, essas ações têm que se firmar em possibilidades cada vez mais calculadas.

É isso que eu queria para minha vida?? Não, não era… Disse que não era, mas que agora passa a ser, pois esse é o ritmo da vida. Não adianta querermos ser pra sempre adolescentes, tentar frear os sinais da idade, correr como um menino aos 40 anos, esquecer a vida real na terra firme para viver ilusões nas nuvens que passam e mudam de forma.

Quando jovens, a irresponsabilidade era inerente, e até tolerável, à própria adolescência. Pode a árvore adulta instalar suas raízes dentro de um recipiente de semente?? Viver a vida real, correr atrás de bens duráveis para a família e para a segurança do lar, não é de forma alguma renunciar aos sonhos de adolescente (ser ator de TV, subir o Himalaia ou ser astronauta), pois na verdade quando éramos adolescentes sonhávamos mesmo era em sermos adultos.

E cá estamos, adultos!! Todos os que se recusam a acompanhar os ritmos da vida, crescimento, amadurecimento e envelhecimento, acabam sofrendo, cedo ou tarde, com as decepções. Chegam à velhice, sozinhos, sem ter realizado nada de concreto, viciados, recalcados, mais dos que aqueles a quem criticavam. E não viveram a vida, a vida como ela é, e sempre deve ser. Sem delírios, a vida que traz mais felicidade, a vida como a vemos em toda a natureza.

Essa é a pergunta que vos faço: o que pode fazer uma pessoa mais feliz do que poder fazer, mais do que o que se quer, o que se deve fazer?? Poder responder no futuro com algo concreto, duradouro, e não apenas como uma lembrança de um acampamento de verão?? O que pode ser mais satisfatório do que a sensação de dever cumprido, de  algo nobre e grande, de uma obra de vida, de algo real e mais que imediato??

Feliz aquele que constrói sua casa na rocha!!