Mãe que é mãe, até quando torra nossa paciência, nos dá algo que valha. Aliás, não foi apenas minha insatisfação com o decepcionante ensino de inglês do colégio público em que eu estufava que me fez ser autodidata, mas a perseguição de minha mãe.

Sim, foi aos 12 anos de idade que ganhei minha primeira fita-cassete de meu pai pelo meu aniversário. Era o ano de 1992. Estava na casa de minha avó, num dos raros domingos em que ele ia visitar a mim e meu irmão. Ótimo! Agora não precisaria mais pedir emprestadas as fitas do Guns N’ Roses.

Daí em diante, minha mãe começou a sabotar meu dia-a-dia, reclamando sempre daquelas “músicas de doido” em uma língua que eu não entendia. “Vai saber se eles não estão te xingando, e tu ainda aí enrolando a língua” — dizia ela, num estilo tipicamente escorpiano de fazer ironias. E, então, me irritava a tal ponto em que eu era obrigado a baixar o volume do toca-fitas ao mínimo. Não, na época não existiam fones de ouvido descartáveis, como os de hoje em dia.

Use Your Illusion I, primeiro de dois volumes da banda de hard-rock norte-americana Guns N’ Roses, lançado em 17 de setembro de 1991.

Comecei a acompanhar as músicas com as letras em inglês, que copiava em folhas de caderno escolar, das capas dos discos de vinil daquele álbum do Guns N’ Roses — o memorável Use Your Illusion I. Não contente, comecei a estudar a gramática do inglês na biblioteca do colégio, partindo dos bons  rudimentos de Língua Portuguesa que obtinha dos professores. Não demorou muito e eu já conseguia entender boa parte do que lia, atraindo a inveja de muitos nas salas de aula.

Após vinte e três anos, mesmo sem jamais ter cursado Inglês em qualquer instituição, consigo traduzir com relativa facilidade a maioria dos documentos não apenas em inglês, mas também em espanhol e francês. E, tudo isso, tendo como origem as trolagens de minha mãe na minha adolescência, sem as quais eu não teria estufado o peito para provar que eu poderia, sim, entender o que aqueles “doidos maconheiros” cantavam.

Surpresa minha: saber que não importava muito que drogas aqueles “doidos” poderiam estar usando, sendo que “o Espírito sopra onde quer”. A Arte segue caminhos misteriosos para deixar perplexas as nossas almas e os nossos inúmeros sentidos.

Eis a primeira canção que traduzi para o português, em versão livre e sem auxílio de dicionários, em 1993:

4 comentários em “Minha mãe e a música dos doidos

  1. Sou dessa época. Aprendi a “arranhar” em inglês igual. Estamos ficando velhos Júlio…
    Época das fitas… Corria pra apertar o play+rec na música preferida. Não tinha dinheiro nem permissão pra comprar discos…. mas, dava meus jeitos. Tudo que balançasse as paredes do prédio tocava no meu ap. Tinha um amplificador caindo aos pedaços, mas, funcionava que era uma beleza… Bons tempos. Eu sabia tudo o que aqueles doidos emaconhados estavam cantando.

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    1. Pois é, Michele, mesmo quando sabíamos o que eles cantavam, dava trabalho explicar isso para as “coroas” 😀 .

      O importante é que os obstáculos (chamam a isso “limites”) que nossos pais nos criam são orientadores muito relevantes. Aprendi que poderia continuar a curtir tudo aquilo sem me deixar pautar pela ideologia. Alguns conseguem isso, eu e você. Outros não crescem nunca. Aderem à maconha & outras porcarias.

      P.S.: Play/REC (o botão vermelho), de vez em quando, não dá muito certo. Ainda bem que minha mãe costumava pintar as unhas. E dá-lhe esmalte para colar a fita arrebentada! 🙂

      Beijos, obrigado pela visita ilustre. E por me lembrar que não sou mais um adolescente. Ainda bem. Volte sempre, foi uma grata surpresa depois de um trajeto de ônibus, em dia de chuva e estrada cheia de lama.

      😎

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