Contradição e Autonomia


A contradição nas palavras proferidas pelas pessoas em seus discursos, hoje em dia, daria um filme, no mínimo, engraçado. Demonstra, mais do que hipocrisia ou má fé, uma ignorância digna de pena. Pessoas conseguem defender valores totalmente incompatíveis entre si em um curto espaço de tempo. A ignorância anula a maioria das ideologias como vazias de sentido e como reflexos distorcidos dos processos naturais que ocorrem ao nosso redor.

Certo dia, observando a laboriosa vida de uma formiga operária, me perguntei por que as pessoas dizem admirar a forma como formigas, abelhas, tubarões e pássaros relacionam-se entre si e como mantém, em ordem, suas sociedades. Essa admiração provém de pessoas que tecem loas a uma tal liberdade.

Ora, em que medida um indivíduo, em uma colônia de formigas ou em uma colmeia, goza de liberdade? Nos genes de uma abelha, a lei da espécie. Fortemente vigiados, os espécimes em um enxame jamais passariam despercebidos – nem seriam deixados vivos – caso deixassem de agir como toda abelha de sua casta (operária, rainha, etc.) deve agir.

No mundo animal, a unificação dos grupos é a tal ponto ditatorial que o DNA, como um código, age como IA (inteligência artificial) ou como representação gráfica de um como que espírito do grupo. A liberdade seria considerada, então, como algo detestável e destrutivo, visto que deixaria brechas para que elementos estranhos ou comportamentos deletérios fossem inoculados na sociedade.

Vejam bem: não estou defendendo as organizações que estão implantando redes de controle social invasivas, como na China e outros países. Estou dizendo que, ainda que diga advogar a liberdade, todo ser humano sabe que a ordem está também no DNA da espécie como padrão. Para que a Vida, a praga que insiste em se disseminar pelo Universo como sintoma inteligente, continue progredindo, ela necessita de ordem e da adoção de leis restritivas em ambientes mais ou menos controlados.

Para a espécie humana e as demais que nos rodeiam, nada melhor do que um planeta ameno, tecnologia restrita e população sob controle cultural. Como em todas as espécies, entre humanos vemos castas: trabalhadores, comerciantes, cientistas e os membros da Realeza (elite). A faculdade racional não eliminou a contradição que impediu, até hoje, nossa unificação em um grande mingau. Tal contradição é a de ser humano e, ainda assim, livre. Como nos diz o Evangelho, analogamente, “não é possível servir a dois senhores”. Ou seja, não é possível sermos emotivos tais quais somos e, ao mesmo tempo, gozarmos da luz da Razão.

Vemos isso, na pratica, na China, com seu sistema de Créditos Sociais e sua ponta-de-lança, a Huwaei; e, aqui no Ocidente, com a pouca importância dada pelas pessoas à eliminação da privacidade dos usuários por parte das gigantes da internet (Google, Facebook, Microsoft, Amazon, Apple, etc.), sob o cínico pretexto da “segurança da Comunidade”.

Como podem os seres humanos, vivendo em uma era de ouro da democracia, aceitar se submeter à uniformização social em todos os países, tal qual presenciamos hoje? A resposta me pareceu mais óbvia do que eu pensava:

  • O ser humano é como qualquer outro animal social: segue o grupo e tende a viver sob uma ordem não presencial;
  • Segue um líder pela imagem que ele representa, ainda que seja ilusória;
  • Capitula diante das necessidades mais básicas (comida, teto, segurança).

A liberdade é uma balela, e eu já disse isso muitas vezes; uma utopia das mais perversas. Não que a mesma não seja desejável, mas que é impossível na forma e prejudicial na essência da ideia de Grupo.

No máximo, podemos desejar uma convivência harmônica, com mínima intervenção ideológica em ambientes privados e nenhuma ameaça à integridade física e à dignidade humana. E, claro, isso passa pelo desenvolvimento sustentável, com homens e ecossistemas devidamente preservados.

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