Carta às Almas envenenadas


A vós, Almas envenenadas, que, do Umbral terreno, me enviais sinais de fumaça preta, escrevo as seguintes linhas a fim de mitigar vossas ânsias.

A vós, plantas secas do Outono, que dizíeis, em vosso orgulho, que o frio era só uma fase ruim, vos faço lembrar que andar para frente, com os olhos fechados, não vos leva a lugar algum se o frasco do veneno mental, que sempre tornais a bebericar neste vácuo, não se esgota em vossas carnes. Deis um destino útil ao fogo que vos seca desde a raiz e adubeis a vossa própria terra e o vosso Coração.

Cada um pode dar apenas o que tem. O Amor do Céu, para um humano do Umbral, não passará de misericórdia banal se ele não tornar o que está embaixo, ao menos, tão são e harmonioso quanto o que habita os ninhos da Águia. Se a Águia erra o voo, o verme não deve ser mais indolente por isso.

Portanto, nenhum ser vivo, ainda que nasça no lodo, pode prescindir de fazer jus ao calor abençoado que recebe. E se, porventura, recebestes pouca luz, abraçai vós, mesmo à distância, a gratidão que dá sentido à vida neste vale de lágrimas e reclames, nesta seara de ilusões.

Invejosos(as) formam uma fauna bem diversificada.

Do Umbral, clamais, em pensamentos de ódio, por justiça torta. E torto é vosso suposto desejo de salvar vítimas dos chacais que assombram vossos sonhos, bichos que não mais existem, nem gritam. Não vos enganeis, pois o ódio não cega; pois, no Umbral desta Vida, todos já assim nascem, cegos, quando não surdos e mudos. O que dizer da inveja que vos une e nutre, dia e noite, dando sentido aos vossos conluios deploráveis?

Lembrai-vos de que o tempo não se vende, não se perde nem se cobra. Ele, tão-somente, passa. A escuridão retorna, após vosso providencial trabalho, aos vossos cubículos, entre a fumaça de um pensamento e o espantoso assobio dos anos que voam. A vingança é um prato que se come, não raro, vazio. Sim, nada comeis do outro; apenas, devorais vossos ombros, junto com o fardo que insistis em carregar sobre eles.

Deixem os pecadores aos seus pecados e não vos arvoreis em sentinelas da Noite, do Caos e dos que nunca dormem. Senão, não vos apercebereis da tênue linha que distingue a cama do túmulo; vos perdereis em vossos personagens e, estes, às margens do Styx, o rio dos condenados ao Esquecimento perpétuo.

Vivam a escuridão em vós mesmas, essa que é prenhe de Luz. Acordem ao romper da madrugada e agradeçam, se ainda tiverdes força, Àquele de quem veio a Luz ao Mundo.

Durmam, pobres almas do Umbral, que por todos pensais velar. Não oreis por mim, já condenado a seguir vivo. Oreis por vós mesmas, em círculo, pois a Morte escreve elegias por meio de vossos dedos. A Miséria é companheira daqueles que transformaram dor em estigma, a pobreza em identidade própria e o Coração em palanque de corvos.

Soltem a corda, deixem o navio seguir, esteja ele lotado de fantasmas ou de crianças birrentas. Vossos sentimentos infantis e doentios não reterão, jamais, o fluxo do Tempo.

Que a Cruz seja vosso Guia e a Rosa floresça em vossos Corações!

U.: T.: I.: C.:

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